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Quem nutre a mãe?

Minha missão de promover cuidado e conexão por meio de refeições saudáveis em todo o Brasil

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Photo credit: Wild Combination

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Cozinhar e cuidar são inseparáveis. A comida é uma das formas mais íntimas de cuidado. Cada refeição preparada carrega um gesto de sustentar a vida, de dizer: “eu vejo você, eu eu te quero bem”. Não é por acaso que a cozinha ocupa um lugar tão central nas famílias e nas comunidades — é ali que muitas vezes sentimos pertencimento e conexão.

O paradoxo é que, embora a sociedade dependa profundamente desse trabalho, ele costuma permanecer invisível e pouco valorizado. Naturalizamos a ideia de que as mulheres — especialmente as mães — estarão sempre ali para nutrir os outros, mesmo quando isso custa a própria saúde, seja física, emocional, material ou espiritual. Mas quem nutre a mãe? O cuidado não pode ser uma via de mão única. Mães, cuidadores e também as cozinheiras e cozinheiros de escolas e comunidades precisam ser cuidados, alimentados e receber apoio.

É por isso que vejo o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) — que alimenta mais de 50 milhões de crianças por dia no Brasil — não apenas como uma política pública de alimentação e saúde, mas também como uma política de cuidado. Quando uma criança está na escola, os pais sabem que ela está sendo bem alimentada, com comida saudável preparada por profissionais dedicados. É uma maneira de o Estado aliviar um pouco a pressão sobre as famílias e também cuidar delas.

Podemos dizer muito através da alimentação

Foi a partir de 2015, quando eu apresentava um programa de culinária na televisão, que comecei a abraçar o ativismo em torno de políticas como essa. Viajando pelo Brasil para conhecer diferentes culturas alimentares, percebi algo muito claro: nem todo mundo tem a mesma oportunidade de se alimentar bem. Comida saudável, fresca e culturalmente significativa não está igualmente disponível para todas as pessoas.

Essa percepção foi um ponto de virada para mim — o contraste entre a arte de cozinhar como fonte de saúde e alegria e a injustiça de seu acesso desigual. Senti que não podia continuar apenas mostrando receitas saudáveis na televisão. Eu precisava assumir a missão de democratizar a alimentação saudável, transformando os sistemas que determinam quem pode comer com dignidade e quem não pode.

Comida de verdade pode reduzir desigualdades e salvar vidas. O Brasil enfrenta uma epidemia silenciosa de doenças crônicas não transmissíveis associadas ao estilo de vida e à alimentação. Quanto pior a dieta, maior o risco: todos os dias, 150 pessoas entre 30 e 69 anos morrem no país em consequência do consumo excessivo de alimentos ultraprocessados [1]. Diante disso, cozinhar comida de verdade, aquela feita em casa, de forma tradicional, tornou-se um ato poderoso de cuidado.

[1]

Nilson, E.A.F., Ferrari, G., Louzada, M.L.C., Levy, R.B., Monteiro, C.A. and Rezende, L.F.M. (2022) Premature deaths attributable to the consumption of ultraprocessed foods in Brazil. American Journal of Preventive Medicine 64(1):129–36. DOI: https://doi.org/10.1016/j.amepre.2022.08.013

Foto: SALMONNEGRO-STOCK

O papel da comida vai além de alimentar famílias

Minha própria história familiar também influenciou esse caminho. Crescendo, a comida nunca foi apenas nutrição — era uma expressão de cultura e de amor. Observando meu pai, Gilberto Gil, cantor, compositor e político brasileiro, aprendi cedo que arte e engajamento político podem caminhar juntos e provocar mudanças.

Ainda assim, sempre me chamou atenção o contraste entre estar grávida e ser mãe. Eu adorava estar grávida. Costumo brincar que poderia viver grávida para sempre — se o resultado não fosse ter um monte de crianças correndo pela casa. Para mim, a gravidez talvez tenha sido a primeira vez em que senti, como mulher no mundo, que havia alguma vantagem real em ser mulher. As pessoas passam a te respeitar de outra forma; você não anda com o mesmo medo de ser assediada, abusada ou violentada. É como se existisse um escudo ao seu redor — e isso traz uma sensação de força.

Mas quando o bebê nasce, a realidade muda. Sempre digo às minhas amigas: quando você tem um recém-nascido, não precisa de dez pessoas se oferecendo para segurar o bebê. O que você realmente precisa é de alguém que ajude nas tarefas da casa — lavar a louça, fazer uma panela de feijão, dobrar a roupa. Esse é o tipo de apoio que realmente permite descansar, criar vínculo e cuidar com presença.

Em muitas famílias brasileiras — especialmente nas regiões Norte e Nordeste — cozinhar é um ato que atravessa gerações. Às vezes os pais estão ocupados trabalhando, e a avó entra em cena: prepara comidas tradicionais e, ao mesmo tempo, transmite cultura e memória.

Quando uma avó ensina o neto ou a neta a temperar o feijão, ela não está apenas ensinando uma receita. Está construindo uma ponte entre gerações — algo que sustenta tanto quem cuida quanto quem está sendo cuidado.

Em muitas famílias brasileiras — especialmente nas regiões Norte e Nordeste — cozinhar é um ato que atravessa gerações.

A comida tem o poder de unir uma comunidade

Nos quilombos, comunidades rurais formadas historicamente por africanos que escaparam da escravidão, e em muitas aldeias indígenas, preparar comida costuma ser uma atividade coletiva. Cada pessoa contribui de alguma forma — alguns colhem, outros cozinham, outros servem. Assim, o trabalho do cuidado é compartilhado, em vez de recair sobre uma única pessoa, geralmente a mãe.

Cozinhar juntos também cria laços de solidariedade. Pense em uma feijoada preparada em um centro comunitário ou em um grande grupo reunido para fazer pamonha nas Festas Juninas. Nessas situações, os pais percebem que não estão sozinhos — seus filhos crescem dentro de um círculo de apoio.

Infelizmente, muitas dessas práticas vêm diminuindo. A falta de tempo, o alto preço dos alimentos frescos, o acesso crescente a produtos ultraprocessados e o medo da violência nas ruas dificultam esses encontros. Precisamos criar mais espaços compartilhados de cuidado em torno da comida, mas a falta de recursos e algumas barreiras culturais ainda são desafios importantes.

Cozinhas comunitárias, merendas escolares ou rituais familiares precisam de tempo, espaço e ingredientes. Em contextos de insegurança alimentar, manter esses espaços pode ser muito difícil sem o apoio de políticas públicas. Nas famílias urbanas, com longas jornadas de trabalho e deslocamentos demorados, encontrar tempo para refeições compartilhadas ou cozinhar juntos muitas vezes pode ser sinônimo de luxo.

No Brasil, cozinhar coletivamente ainda é frequentemente visto como assistencialismo ou como algo destinado apenas às pessoas pobres, em vez de ser reconhecido como uma prática digna de solidariedade e cultura. Mudar essa percepção é fundamental. E mesmo nesses espaços, muitas vezes o trabalho continua recaindo mais sobre as mulheres — por isso precisamos ter cuidado para não reproduzir o mesmo desequilíbrio de gênero que queremos transformar.

Todo pai ou mãe precisa alimentar seus filhos várias vezes ao dia. Esse gesto pode ser fonte de estresse e de desigualdade quando o acesso a alimentos saudáveis e acessíveis é limitado — ou, ao contrário, pode se tornar uma base para o bem-estar. Políticas públicas que ignoram essa realidade deixam de enxergar como a parentalidade acontece na prática. A alimentação precisa estar no centro de qualquer política que realmente queira apoiar as famílias. Afinal, a comida é o ingrediente que conecta saúde, educação, economia e cuidado.

Foto: Arthur Nobre

Kichari e verduras

Uma receita de Bela Gil

Nos primeiros anos da maternidade, minha comida favorita era kichari. Preciso agradecer ao meu querido amigo Pablo por me apresentar esse prato tradicional indiano, que se tornou mais do que uma refeição: um verdadeiro ritual de equilíbrio e cuidado. Sempre que me sentia mal, seja emocional ou fisicamente, deixava algumas mung beans de molho e cozinhava arroz basmati branco para preparar o kichari.

Tenho uma lembrança feliz de mim mesma na cozinha, grávida, mexendo lentamente uma panela de kichari enquanto o cheiro de cominho e gengibre preenchia o ambiente.

O kichari é a minha comida abraço. Nenhum outro prato me deixa tão feliz e satisfeita no inverno. A combinação de arroz, lentilhas, legumes macios, especiarias que aquecem e ghee sempre me faz sentir nutrida e mais calma. Cada vez que o preparo, faço pequenas mudanças — e esta é a minha versão mais recente:

Ingredientes do kichari

  • 2 colheres de sopa de gengibre fresco picado
  • 1 colher de sopa de sementes de cominho
  • 1 pitada de assa-fétida (hing)
  • 1 pitada de pimenta caiena
  • 1 couve-flor em floretes
  • 1 colher de sopa de cúrcuma
  • 1 xícara de arroz integral
  • 1 xícara de lentilhas vermelhas partidas
  • 7 xícaras de água
  • ¾ de xícara de ervilhas frescas ou congeladas
  • 2 colheres de sopa de ghee (manteiga clarificada) ou outro óleo (azeite, óleo de uva, gergelim, girassol)
  • Sal a gosto

Para o acompanhamento de folhas verdes

  • 2 dentes de alho picados
  • 1 maço de folhas (couve, dente-de-leão, couve-manteiga, mostarda ou beterraba) picadas finamente
  • 2 colheres de sopa de óleo de girassol
  • ½ colher de chá de sal marinho

Acompanhado de folhas escuras, o kichari é um alimento vegetariano completo: fornece proteína do arroz e das lentilhas, ferro e muito cálcio das folhas.

Coincidentemente, enquanto escrevia esta receita para a Early Childhood Matters, ouvi uma reportagem sobre alimentos que podem ajudar a reduzir o risco de câncer: gengibre (gengibreol), pimenta caiena (capsaicina), cúrcuma (curcumina) e couve-flor (sulforafano). O kichari reúne todos esses ingredientes.

Role para baixo para ver o modo de preparo.

Foto: Arthur Nobre

Modo de preparo:

  1. Lave o arroz e as lentilhas até a água ficar clara (cerca de 3 a 5 vezes).
  2. Aqueça o ghee ou óleo em uma panela pesada de 1 litro ou em uma panela de pressão em fogo alto. Acrescente o gengibre e as sementes de cominho e frite até dourar. Adicione a couve-flor e cozinhe por 3 minutos. Em seguida, junte o arroz e as lentilhas e frite por mais de 1 minuto.
  3. Adicione a água e as especiarias (assa-fétida, cúrcuma, pimenta caiena e sal).
  4. Leve à fervura em fogo alto. Tampe a panela ou a panela de pressão. Se usar a panela comum, abaixe o fogo e deixe cozinhar por 1 hora e meia. Se usar a panela de pressão, mantenha o fogo alto até atingir pressão total e depois abaixe para cozinhar por 50–60 minutos.
  5. Abra a tampa e adicione as ervilhas.
  6. O kichari deve ter consistência de mingau. Caso ainda esteja líquido, deixe cozinhar com a tampa aberta por mais 5 minutos, mexendo ocasionalmente até engrossar.
  7. Para o acompanhamento de folhas, aqueça o óleo de girassol em fogo alto em uma frigideira. Adicione o alho até dourar. Junte as folhas e o sal, reduza para fogo médio e mexa por cerca de 5 minutos, até amolecerem.

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