Belém, uma cidade vibrante e desafiadora no coração da Amazônia brasileira, sediou recentemente a COP30, a conferência global sobre mudanças climáticas. Nesta entrevista, o prefeito Igor Normando compartilha sua visão de um mundo em que as agendas climática e da primeira infância avancem juntas.
Para as famílias que vivem na Amazônia, o legado da COP em Belém traz esperança de um futuro mais seguro, com mais oportunidades e prioridade ao desenvolvimento das crianças. Para o prefeito, o futuro do planeta e o futuro das crianças estão profundamente conectados — e seu trabalho segue nessa direção.
Pais e mães costumam se preocupar com o futuro dos filhos. O que você tem escutado das famílias sobre os impactos das mudanças climáticas no dia a dia delas?
Eu decidi me candidatar à prefeitura de Belém porque acredito muito no potencial da cidade. Somos uma metrópole amazônica que tem a responsabilidade de mostrar ao mundo que é possível construir um futuro sustentável e mais justo. Entrei nessa caminhada com o desejo de transformar Belém em uma cidade mais inclusiva, resiliente e atenta às pessoas — especialmente às crianças e a quem cuida delas.
Escutar as famílias é o ponto de partida do nosso trabalho de gestão e da formulação de políticas públicas. O que temos percebido é que mães e pais desejam uma cidade que ofereça segurança, acesso a serviços de qualidade e espaços de lazer. Eles se preocupam com o clima, com enchentes e incêndios, mas também precisam de apoio no dia a dia. O acesso a creches de qualidade, por exemplo, aparece como uma prioridade muito clara para muitas famílias.
E como a cidade tem respondido a essa realidade?
Belém enfrenta muitos desafios, mas estamos aprendendo e buscando soluções que respondam ao mesmo tempo às necessidades ambientais e sociais da cidade. Entre elas estão a ampliação das áreas verdes urbanas, o avanço no acesso ao saneamento básico e o desenvolvimento de uma bioeconomia capaz de melhorar a qualidade de vida das crianças, dos pais e de toda a população.
Sabemos que ainda temos desafios importantes. Um deles é a baixa cobertura de creches: hoje conseguimos atender apenas cerca de 15% das crianças de 0 a 3 anos. Outro é a falta de áreas verdes nos centros de educação infantil — uma realidade que também afeta muitas outras cidades brasileiras.
Para enfrentar esse cenário, estamos avançando com o programa Escolas Verdes para Cidades Resilientes, que vai naturalizar os pátios de três escolas públicas. O programa também cria as Praças da Primeira Infância, espaços com materiais naturais que incentivam o brincar em contato com a natureza e ajudam na adaptação climática.
É importante que as famílias tenham espaços próximos de casa para levar suas crianças para brincar. Nosso foco é trazer educação ambiental e áreas de lazer para as periferias da cidade, onde o acesso a áreas verdes e a equipamentos de qualidade para brincar ainda é mais limitado.

O que significou para Belém sediar a COP30? E como as famílias com crianças pequenas vivenciaram esse momento?
A Amazônia ajuda o mundo inteiro a respirar. Sediar a COP em Belém foi um reconhecimento da importância da Amazônia na agenda climática global. Nós, paraenses, belenenses e amazônidas, aproveitamos essa oportunidade para mostrar ao mundo o melhor que temos — nossa humanidade, nossa forma de acolher e o amor que temos pela nossa terra.
Acreditamos que apoiar as famílias, fortalecer a resiliência climática e investir em educação ambiental são caminhos que andam juntos. A Amazônia não é apenas uma paisagem; ela faz parte da nossa identidade. Pais e crianças em Belém conhecem o valor da floresta, dos rios, da biodiversidade e da nossa cultura. Eles preservam saberes e uma relação profunda com a natureza. Durante a COP, tiveram a oportunidade de compartilhar essa sabedoria com pessoas de todo o mundo.
Também fizemos um esforço para que a COP não fosse um evento restrito apenas a tomadores de decisão. Queríamos que fosse uma experiência de aprendizado para as crianças. Abrimos espaço para que participassem, ouvimos suas vozes e buscamos formas educativas de envolvê-las com a preservação ambiental e a sustentabilidade.
Para muitas famílias da Região Norte, foi também uma oportunidade de mostrar ao mundo as realidades que enfrentamos diante das mudanças climáticas. Nossas famílias puderam ser protagonistas na construção de políticas públicas transformadoras e de ações concretas pelo clima.
Mantivemos ainda um diálogo constante com organizações que defendem os direitos das crianças, para garantir que a agenda da primeira infância e dos cuidadores estivesse presente nas discussões da COP. É assim que conseguimos construir políticas de adaptação e resiliência climática com uma visão mais humana e inclusiva.
Quais são os próximos passos para Belém? E onde você vê oportunidades de conectar a agenda climática com o desenvolvimento da primeira infância?
A COP foi um grande incentivo para o crescimento sustentável de Belém, mas nunca perdemos de vista o nosso maior compromisso: cuidar das famílias de Belém.
Investir em crianças e em quem cuida delas é investir em resiliência e adaptação. Quando garantimos acesso à saúde, à educação e ao bem-estar nos primeiros anos de vida, construímos uma sociedade mais justa e mais preparada para enfrentar os desafios do futuro.
Nossa estratégia está organizada em três pilares.
- O primeiro é o Desenvolvimento Integral, que busca fortalecer o capital humano. Para isso, estamos implementando o projeto-piloto dos Centros Unificados de Cidadania (CUCA), que integram serviços de saúde, educação e assistência social.
- O segundo pilar é a Infraestrutura Urbana e Ambiental Amiga da Criança. Estamos implementando Soluções Baseadas na Natureza (SbN) para criar ambientes urbanos mais seguros e resilientes para o desenvolvimento das crianças.
- O terceiro pilar é a Governança e o Uso de Dados. Para uma gestão mais transparente e baseada em evidências, estamos estruturando um Sistema Unificado de Informações sobre a Primeira Infância.
A justiça climática não existe sem justiça social. Por isso, é fundamental olhar para quem vive nas florestas — e para as famílias de Belém. Para nós, a primeira infância é o ponto de partida quando falamos de ação climática.








