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Mudanças biológicas ajudam os homens a se preparar para a paternidade

Como o cuidado paterno ajudou os seres humanos a prosperar

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Lee holding his newborn with skin-to-skin contact. Photo: Lee Gettler.

A primeira vez que segurei meu filho recém-nascido nos braços, senti, como muitos pais, uma avalanche de emoções e a súbita consciência das novas responsabilidades que surgiam. Mas, diferentemente da maioria dos pais de primeira viagem, peguei um pequeno tubo de plástico e colhi uma amostra da minha própria saliva enquanto ele dormia sobre meu peito.

Para entender a razão disso, precisamos voltar 20 anos no tempo, quando eu ainda era um jovem estudante de pós-graduação no início da carreira e me perguntava por que as explicações sobre os pais na evolução humana se concentravam quase exclusivamente no papel deles como fornecedores de recursos. Mesmo naquela época, os estudiosos já sabiam que os pais eram capazes de muito mais do que simplesmente cumprir a função de “provedor”. Inúmeros estudos mostram que, quando os pais se comprometem e participam regularmente da vida de seus filhos, as crianças apresentam melhores resultados em saúde, desempenho escolar, bem-estar emocional e relações sociais.

O que é menos conhecido pelo público em geral e pelos responsáveis por políticas públicas é que os pais humanos são realmente excepcionais em sua motivação e capacidade de cuidado. Na esmagadora maioria das outras espécies de mamíferos, os pais não colaboram com as mães na criação dos filhotes. Mesmo entre nossos parentes mais próximos, os grandes primatas, não se observam formas intensas, consistentes e custosas de cuidado paterno.

Isso sugere que as capacidades e motivações dos pais humanos surgiram como um elemento único e importante na nossa história evolutiva. Mas como isso aconteceu? Um dos desafios de refletir sobre essa questão é que esse tipo de cuidado não deixa vestígios em fósseis ou registros arqueológicos; não existem “cangurus de bebê para pais” nem “kits de ensino paterno” da antiguidade.

Comecei a pensar em que outros tipos de perguntas poderíamos fazer para entender melhor a importância do cuidado paterno. Cientistas já sabiam há décadas que, em espécies de aves em que os pais ajudam a cuidar dos filhotes, os pássaros apresentam alterações hormonais, como na testosterona, prolactina e ocitocina. Havia também indícios de que pais casados apresentavam perfis hormonais diferentes dos homens solteiros, particularmente níveis mais baixos de testosterona.

No entanto, a maioria desses estudos era pequena e feita a partir de um recorte, ou seja, funcionava como uma fotografia de um momento específico na vida dos homens, registrando seu estado dentro do contexto familiar e seus hormônios. Esse tipo de pesquisa apresenta um problema de “ovo e a galinha”: o que vem primeiro? Tornar-se pai casado afeta a testosterona e outros hormônios? Ou são os homens com níveis mais baixos de testosterona que têm maior probabilidade de se tornarem pais casados?

Níveis mais baixos de testosterona indicam que você está se tornando um bom pai

Quando minha esposa e eu decidimos começar uma família, há pouco mais de dez anos, comecei a coletar minha saliva todas as semanas. Fiz isso para acompanhar como minha testosterona mudava ao longo do tempo, desde o período da gravidez até o momento em que trouxemos nosso primeiro filho para casa e aprendíamos a ser pais de primeira viagem. Coletei quase 50 amostras da minha própria saliva e analisamos os níveis de testosterona em meu laboratório. Minha testosterona, na verdade, aumentou no início da gravidez, mas depois caiu drasticamente após o nascimento do meu filho.

Nesse estágio da minha pesquisa, isso já não me surpreendia, e essas mudanças biológicas que eu estava vivenciando me ajudavam a me preparar para “estar à altura daquele momento” como pai. Nosso filho exigia muito de nós — era muito irritadiço e raramente dormia por meses a fio. Foi preciso muita empatia, sensibilidade e paciência durante longas horas para que pudéssemos oferecer o cuidado que ele precisava. De muitas maneiras, os desafios e as necessidades do meu filho ilustram por que níveis mais baixos de testosterona podem ser úteis para os novos pais. A forma como acompanhei minha testosterona ao longo do tempo também ajuda a entender como minha equipe e eu abordamos a questão do “ovo e a galinha” sobre paternidade e testosterona.

De muitas maneiras, os desafios e as necessidades do meu filho ilustram por que níveis mais baixos de testosterona podem ser úteis para os novos pais.

Para responder a esse tipo de questão, os cientistas precisam de dados longitudinais que acompanhem rigorosamente os mesmos homens ao longo do tempo, à medida que passam de jovens solteiros sem filhos para a experiência de transitar ao casamento e à paternidade. Felizmente para mim, consegui conectar meu interesse na biologia da paternidade a um estudo longitudinal único e importante nas Filipinas, que permitia obter exatamente esse tipo de perspectiva.

Em 2011, conduzi um estudo que acompanhou homens ao longo de um período de cinco anos [1]. Esses homens estavam na faixa dos vinte e poucos anos — no auge de sua capacidade reprodutiva. Entre os homens que permaneceram solteiros e sem filhos durante esse período, os níveis de testosterona mudaram muito pouco. Mas nos homens que passaram de solteiros sem filhos para pais em relacionamento, os níveis de testosterona diminuíram de forma significativa — em média, cerca de 25%.

[1]

Gettler. L.T., McDade, T.W., Feranil, A.B. and Kuzawa, C.W. (2011) Longitudinal evidence that fatherhood decreases testosterone in human males. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America 108(39): 16194–99. DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.1105403108

Aqui está a nossa resposta à questão do “ovo e da galinha”: não é que homens com níveis mais baixos de testosterona tenham maior probabilidade de se tornarem pais em relacionamento. Pelo contrário, os homens que apresentavam os níveis mais altos de testosterona enquanto solteiros e sem filhos eram justamente os mais propensos a se tornarem pais casados cinco anos depois. Ao que tudo indica, tornar-se pai é o que está relacionado à diminuição dos níveis de testosterona, e observamos as maiores quedas entre os pais de recém-nascidos.

Também descobrimos que os pais mais comprometidos e envolvidos apresentavam níveis de testosterona mais baixos. Aqueles que dedicavam mais tempo ao cuidado dos filhos — lendo para eles, alimentando-os, levando-os para passear ou ao parque — tinham níveis de testosterona mais baixos do que os pais que passavam pouco tempo com práticas de cuidado. Além disso, se os pais aumentavam o tempo dedicado ao cuidado ao longo dos anos, seus níveis de testosterona caíam ainda mais.[2]

[2]

Gettler, L.T., McDade, T.W., Agustin, S.S., Feranil, A.B. and Kuzawa, C.W. (2015) Longitudinal perspectives on fathers’ residence status, time allocation, and testosterone in the Philippines. Adaptive Human Behavior and Physiology 1: 124–49. DOI: https://doi.org/10.1007/s40750-014-0018-9

Mudando a narrativa sobre masculinidade

Quando publicamos nosso estudo, eu já estava ciente das narrativas populares em torno da testosterona. Basta ouvir podcasts esportivos ou assistir a programas relacionados a homens e violência para perceber que a testosterona é constantemente apresentada como a força propulsora por trás de como os homens interagem entre si. Ainda assim, eu não estava preparado para a dimensão com que os jornalistas iriam confundir testosterona e masculinidade ao noticiar nosso estudo.

Toda vez que eu conversava com um repórter, eles tentavam me levar de volta a esse ponto: “Então, tornar-se pai transforma o homem em uma mulher? Quanto mais você cuida do seu filho, menos homem você se torna?” Era chocante, frustrante e até um pouco assustador ver como o estudo estava sendo mal interpretado. Isso me mostrou a necessidade de trabalhar duro para divulgar um tipo diferente de narrativa sobre o que significa ser um homem.

Sempre que falo sobre minha pesquisa hoje, convido as pessoas a refletirem sobre como os homens concebem sua própria masculinidade. A maioria dos homens que são pais e parceiros valoriza exercer esses papéis. Eles se veem como mais homens — e não menos — quando se dedicam a apoiar a família, tornar-se um exemplo e dar o melhor de si para os filhos. A ideia de que ser um bom pai, de alguma forma, faz de você menos homem apenas porque sua testosterona diminui é incoerente.

Eles se veem como mais homens — e não menos — quando se dedicam a apoiar a família, tornar-se um exemplo e dar o melhor de si para os filhos.

A ocitocina também prepara os pais para criar vínculos

Diversas outras equipes de pesquisa confirmaram desde então nossas descobertas sobre a testosterona em diferentes contextos culturais [3]. Elas também mostraram que, para alguns pais de primeira viagem, as alterações na testosterona começam ainda durante a gravidez de suas parceiras. As parceiras de homens cuja testosterona cai mais ao longo da gestação relatam sentir-se mais apoiadas no período pós-parto, e os pais se mostram mais envolvidos nos cuidados com os recém-nascidos [4].

[3]

Gettler, L.T. (2016) Becoming DADS: Considering the role of cultural context and developmental plasticity for paternal socioendocrinology. Current Anthropology 57(S13): S38–51. Available at: https://www.journals.uchicago.edu/doi/10.1086/686149 (accessed January 2026).

[4]

Edelstein, R.S., Chopik, W.J., Saxbe, D.E., Wardecker, B.M., Moors, A.C. and LaBelle, O.P. (2017) Prospective and dyadic associations between expectant parents’ prenatal hormone changes and postpartum parenting outcomes. Developmental Psychobiology 59(1): 77–90. DOI: https://doi.org/10.1002/dev.21469

Essa história sobre a biologia da paternidade não se resume à testosterona. O laboratório da Dra. Ruth Feldman, em Israel, mostrou que outro hormônio nos pais, a ocitocina, está relacionado a momentos positivos de contato pai-bebê, como brincadeiras físicas e exploratórias que ajudam as crianças a aprender sobre o mundo ao seu redor. Eles também descobriram que pais com maiores concentrações de ocitocina se sentem mais ligados aos filhos em comparação com aqueles com quantidades mais baixas do hormônio.

Em nossa pesquisa no Centro-Norte dos Estados Unidos, minha equipe mostrou que o sistema hormonal dos pais está preparado para reagir desde os primeiros momentos de cuidado. Trabalhando com pais na unidade de parto, nos minutos em torno do nascimento de seus bebês, descobrimos que eles apresentavam picos significativos de ocitocina ao segurarem os filhos pela primeira vez. Essas alterações hormonais ajudam os pais a responder melhor aos momentos de cuidado e de vínculo desde o primeiro instante.

Logo após segurar meu bebê recém-nascido pela primeira vez, colhi minha própria amostra de saliva para registrar o momento. Enquanto sentia a onda de emoções avassaladoras, parecia que eu podia realmente sentir fisiologicamente a ocitocina mudando em meu corpo.

Mudanças hormonais nos ajudam a enfrentar a exigente transição para a paternidade

Todo o conhecimento acadêmico do mundo não nos prepara para as demandas do dia a dia de ser pai. Como eu disse, meu filho tinha cólicas e dormiu mal por muitos meses. Minha esposa e eu precisávamos oferecer tudo o que tínhamos para sermos pais calmos e cuidadosos nos momentos em que ele não conseguia pregar o olho e chorava por horas. Passar por aqueles primeiros anos desafiadores exigiu de mim mais sensibilidade, empatia e paciência, mais do que eu poderia imaginar ser possível.

Como biólogo e antropólogo, passei a compreender o papel das mudanças hormonais durante a paternidade na história evolutiva da nossa espécie: homens que experimentavam essas alterações tendiam a desempenhar melhor o papel de ajudar a criar os filhos, aumentando a probabilidade de sobrevivência e desenvolvimento das crianças — e, por isso, acreditamos que os genes que predispunham esses homens a tais mudanças hormonais se espalharam pela população humana há muito tempo.

Mas foi somente como pai que consegui transformar esse conhecimento acadêmico em experiência pessoal. Experimentei na própria pele como minhas mudanças hormonais me transformavam, preparando-me para ser um pai e parceiro melhor. Se você vê assumir a responsabilidade de ser pai como um traço central da masculinidade, a queda de testosterona que acompanha a paternidade não é motivo de preocupação — ela, na verdade, ajuda você a se tornar o homem que deseja ser.

A verdadeira história humana sobre hormônios e paternidade precisa chegar a mais homens: aos que querem abraçar o papel de cuidador, aos que acham que cuidar não é sua função, e aos que se sentem inseguros ao segurar e cuidar de seus frágeis recém-nascidos. Todos eles serão transformados pela paternidade, e o cuidado que oferecerem moldará a compreensão sobre vida familiar e masculinidade para a próxima geração de homens.

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