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Cuidadores no centro da educação infantil

Como práticas relacionais podem fortalecer a parceria entre creches e famílias no Brasil

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Muitos educadores no Brasil têm a impressão de que algumas famílias veem as creches e pré-escolas principalmente como lugares onde podem deixar seus filhos enquanto trabalham. Por isso, frequentemente se perguntam por que pais e outros cuidadores não se envolvem mais na educação das crianças. No entanto, quando escutamos as próprias famílias, surge outra perspectiva. Muitos pais relatam sentir-se intimidados pelos educadores. Não sabem exatamente qual deveria ser o seu papel na educação dos filhos — especialmente nos primeiros anos — e muitas vezes têm receio de serem julgados.

Pais e educadores costumam se encontrar apenas em momentos de crise, quando uma criança está com dificuldades ou apresenta comportamentos desafiadores. Muitas vezes, cada lado sente que o outro o responsabiliza, ainda que de forma implícita. Como resultado, a educação infantil e o cuidado familiar acabam seguindo caminhos separados, funcionando em paralelo em vez de em parceria. Os confinamentos durante a pandemia de Covid-19 começaram a mudar essa dinâmica. Escolas e famílias passaram a se comunicar com mais frequência e por novos meios, como mensagens de WhatsApp e chamadas de vídeo para conversas informais. A partir daí, começaram a surgir vínculos inesperados.

Inspiradas pela experiência vivida durante o período de confinamento, criamos o Família+ com o objetivo de romper o ciclo de distanciamento entre educadores e famílias. Partimos de uma pergunta central: como os centros de educação infantil — que atendem crianças desde o nascimento até os 6 anos — podem se tornar não apenas espaços de aprendizagem para as crianças, mas também lugares onde pais e cuidadores se sintam acolhidos, apoiados e reconhecidos? O Família+ parte da ideia de que apoiar o desenvolvimento das crianças pequenas começa por criar formas acessíveis de fortalecer as relações entre os adultos responsáveis por criá-las e educá-las.

Desenhando soluções a partir das necessidades das famílias

A equipe responsável pelo Família+ queria criar um programa baseado nas necessidades reais das famílias. Por isso, começamos ouvindo pais e cuidadores para compreender melhor suas experiências no dia a dia. Em 2022, realizamos grupos focais com famílias, professores, coordenadores pedagógicos e diretores de escolas para explorar as dinâmicas entre escola e família em Recife, PE, e Cascavel, PR. Também visitamos mães em suas casas para conduzir entrevistas em profundidade sobre suas rotinas, seus desafios emocionais e suas práticas de cuidado.

No Brasil, falar sobre o bem-estar materno é fundamental. De acordo com o Censo Demográfico de 2022, quase três quartos das famílias em situação de vulnerabilidade econômica com crianças pequenas são chefiadas por mães solo. Muitas delas precisam conciliar trabalho remunerado, cuidado com os filhos, gestão da casa e o trabalho emocional — muitas vezes invisível — de sustentar a vida familiar, sem apoio consistente de um parceiro ou de serviços públicos. Esse cenário nos levou a refletir sobre como o Família+ precisaria envolver de forma ativa outros membros da família, especialmente os pais, para evitar que ainda mais responsabilidades recaíssem apenas sobre as mães.

O programa reconhece o trabalho invisível realizado pelas mães e a importância de que elas se sintam vistas e apoiadas.
Ana Luiza Raggio Colagrossi & Bárbara Barros Barbosa

Nas entrevistas, muitas mães descreveram a sensação de viver no piloto automático, passando de uma tarefa a outra sem momentos de pausa. Embora valorizem profundamente o tempo com seus filhos, o cansaço frequentemente torna difícil estar presente de forma mais atenta nesse convívio. Quando surgem momentos de descanso, elas costumam recorrer a atividades mais passivas, como assistir televisão ou navegar no celular.

O programa reconhece o trabalho invisível realizado pelas mães e a importância de que elas se sintam vistas e apoiadas. Oferece a elas a linguagem, a estrutura e o espaço emocional necessários para se reconectarem consigo mesmas, entre si e com seus filhos.

O Família+ parte da ideia de fortalecer práticas que já existem, em vez de substituí-las. O programa oferece ferramentas simples, com forte ressonância emocional, enraizadas nas relações do cotidiano. Sua metodologia combina o uso de plataformas de mensagens com encontros coletivos mensais presenciais e rodas de conversa. A proposta também se apoia em princípios das ciências comportamentais para ampliar o engajamento e fortalecer os vínculos. Entre essas estratégias estão aspectos como o tom e o momento de envio das mensagens, além da importância de que elas venham de pessoas em quem as famílias confiam.

No entanto, o programa não é rígido nem segue um modelo único para todos os contextos. Em escolas de Recife, comunidades de Cascavel e municípios do Ceará e do Rio Grande do Sul, adaptamos o programa em colaboração com os participantes para que ele reflita suas realidades e experiências de vida. Esse processo de cocriação garante maior pertinência, fortalece o protagonismo local e contribui para a sustentabilidade da iniciativa no longo prazo.

O poder que existe em se sentir vista e apoiada

Nas rodas de conversa do Família+, as mães são convidadas a refletir sobre uma pergunta simples: “Como você se sente no final do dia?” A partir daí, surgem relatos de cansaço e sobrecarga emocional, mas também pequenas alegrias que muitas vezes permanecem silenciosas. O que antes parecia uma experiência individual passa a ser compreendido coletivamente. Como disse uma das mães: “Percebemos que não somos as únicas cansadas ou sobrecarregadas. Escutamos outras mães vivendo as mesmas coisas que nós. E trocamos ideias”.

Participantes no Ceará descreveram as rodas de conversa como momentos de alívio e de acolhimento emocional. Uma mãe comentou: “Foi a primeira vez que alguém realmente olhou para nós.” Outra refletiu: “Eu chorei, isso me ajudou a me abrir, e gostaria que mais mães tivessem essa oportunidade.” A cuidadora Josiele Sales escreveu um poema sobre sua experiência:

“Nós choramos e sorrimos, nos sentimos abraçadas mesmo quando estamos deprimidas, mas ainda assim seguimos juntas …”

Entre um encontro e outro, mensagens enviadas pelo WhatsApp por educadores de confiança reforçam a importância da presença e do descanso como formas conscientes de cuidado. “Você tirou um momento para si mesma esta semana?” ou “Escolha um canto da casa de que você goste. Sente ali, respire e fique ali por um tempo. Só isso.” Ímãs de geladeira também são ferramentas que oferecem lembretes sutis no dia a dia. Como disse uma mãe: “Adoro os ímãs — eles me lembram todos os dias do que preciso fazer por mim mesma.”

Com o tempo, passamos a observar mudanças sutis, mas significativas. As mães começaram a reconhecer melhor suas emoções, a fazer uma pausa antes de reagir e a sustentar sentimentos difíceis, em vez de deixá-los transbordar nas interações com os filhos. Como explica Claudete Oliveira, secretária de Educação de El Dorado do Sul, RS: “Elas começaram a nomear o que sentiam, a entender o que queriam. E isso se reflete nas crianças.” Algumas também passaram a repensar suas rotinas. Como disse uma mãe do Ceará: “Percebi que preciso cuidar de mim para poder cuidar da minha família.” Essas observações tornam visível uma das hipóteses centrais do programa: o bem-estar das crianças se constrói a partir do bem-estar de quem cuida delas.

Foto: Família+

Caminhos e estratégias para envolver os pais

Além de fortalecer o apoio mútuo entre as mães, o Família+ também cria caminhos para incentivar a participação de pais e cuidadores homens. Um exemplo é um ímã de geladeira enviado para casa com a mensagem: “Cuide-se! Divida as tarefas da casa.” A ilustração mostra um homem e uma mulher limpando e cuidando do lar. Esses pequenos sinais visuais ajudam a tornar mais natural a participação masculina, a questionar papéis de gênero tradicionais e a estimular conversas sobre responsabilidades compartilhadas.

José Renato, pai de Recife, contou como o programa o ajudou a se reconectar com a própria infância e a perceber que, sem se dar conta, havia reproduzido com o filho mais velho a mesma relação distante que tivera com seu próprio pai. Ao refletir sobre como muitos pais acabam cedendo às normas tradicionais de gênero no cuidado com os filhos, ele decidiu mudar sua postura e se aproximou mais do filho mais novo. Depois de ouvir seu relato, Ana Rejane Araujo — técnica da Secretaria de Educação — transformou suas palavras em um cordel, forma tradicional da poesia popular brasileira:

… Eu não brincava com meus filhos
Porque meu pai nunca brincou …
E eu não me dava conta,
Que, eu, do outro lado da ponta
Também “se acomodou” …

Foto: Família+

Apoiar educadores na construção de vínculos com mães e pais

O Família+ oferece a educadores e famílias ferramentas para exercitar presença, escuta e caminhar juntos — um lembrete de que o cuidado não é uma tarefa individual, mas uma responsabilidade compartilhada, construída a partir da confiança. O WhatsApp, por exemplo, muitas vezes visto apenas como um meio de comunicação prática entre educadores e responsáveis, passou a funcionar também como um canal de cuidado. Como comentou uma educadora: “Todos os dias elas mandam mensagens, continuam conectadas a nós.”

“Percebemos que não somos as únicas cansadas ou sobrecarregadas. Escutamos outras mães vivendo as mesmas coisas que nós. E trocamos ideias”.
Mãe na Familia+

Educadores do Ceará contam que famílias com quem antes quase não tinham contato — apenas “um rápido bom-dia no portão da escola” — passaram, pouco a pouco, a se abrir nas rodas de conversa, compartilhando suas histórias e construindo novas relações de confiança. “Passamos a conhecê-las de maneira muito mais profunda”, explicou uma professora, “por causa dos momentos que criamos juntos.”

O Família+ também investe nos educadores que conduzem o programa, oferecendo módulos curtos de formação, trocas entre pares, espaços de aprendizagem coletiva, que ajudam a sustentar tanto o desenvolvimento de habilidades quanto a resiliência emocional. Em 2026, será lançada uma plataforma digital de bem-estar do Família+, voltada a apoiar ainda mais esses profissionais, fortalecendo seu desenvolvimento contínuo e seu próprio cuidado.

Outra educadora observou: “O Família+ não transforma apenas as famílias. Ele também transforma nossas próprias práticas.” Professores e equipes escolares passaram a enxergar pais e mães não como desinteressados ou distantes, mas como pessoas que enfrentam desafios emocionais e estruturais intensos. Com essa mudança de perspectiva, escolas que antes pareciam distantes dos cuidadores tornaram-se espaços de confiança mútua. “O vínculo que se formou com essas mães é impressionante”, diz uma professora. “Agora elas confiam em nós.”

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