A gravidez nos faz pensar em duas direções ao mesmo tempo: no passado, em quem veio antes de nós, e no futuro, em quem ainda virá. Ao se tornar mãe, você se transforma numa espécie de ponte — carregando o que recebeu das gerações anteriores enquanto ajuda a moldar o mundo que seu filho irá herdar.
Desde cedo herdei da minha mãe uma conexão com a natureza. Ela me ensinava o nome das flores, colocava musgo em minhas mãos depois da chuva e me mostrava a alegria silenciosa de estar ao ar livre. Esse presente me acompanhou até a vida adulta — tanto que se tornou minha profissão como engenheira ecológica. Mas, quando engravidei pela primeira vez, algo mudou. Aquela relação se aprofundou e ganhou novos sentidos.
Árvores pelas quais eu já havia passado incontáveis vezes pelo caminho começaram a parecer diferentes. A sombra delas me transmitia proteção; suas raízes, uma sensação de firmeza; os galhos, quase uma presença vigilante. O freixo do lado de fora da nossa janela em Amsterdã, marcado por tempestades e coberto pela poeira do trânsito, passou a ser uma espécie de companheiro silencioso. Eu apoiava a mão em sua casca como quem pede equilíbrio. O breve voo de um pardal entre os galhos, a casca áspera sob minhas mãos — pequenos sinais de que eu fazia parte de algo mais maior e mais antigo do que eu.
Descobrindo a natureza juntos: pais e filhos
O que começou como uma forma de encontrar equilíbrio acabou se tornando um ritual. E esse ritual atravessou comigo a maternidade. Depois de um parto de emergência que quase custou a minha vida e a do meu filho, desci a rua pela primeira vez em passos lentos, sentindo os pontos repuxarem a cada movimento e uma dor persistente atravessar o abdômen. O ar frio ardia nos pulmões — mas, ainda assim, me fazia bem. O sol no rosto trouxe mais do que vitamina D: trouxe a certeza de que ainda estávamos aqui. Frágeis, mas vivos.
Cinco semanas depois, com o bebê preso ao meu peito, descobri algo simples e poderoso: cuidar de um recém-nascido é infinitamente mais fácil ao ar livre. O ar parecia suavizar o choro dele. A brisa o embalava até dormir. E as árvores acalmavam a minha mente acelerada. Hoje, aos dois anos e meio, as primeiras palavras dele todas as manhãs são sempre as mesmas: “Lá fora, mamãe.” E então nós vamos.
Para ele, a pequena floresta urbana de cinquenta metros quadrados na esquina do nosso prédio de quatro andares é como Yellowstone: imensa, selvagem, infinita. As raízes viram montanhas. As poças d’água se transformam em oceanos. Os pombos são pequenos milagres. Para mim, é apenas uma caminhada curta. Um refúgio confiável. Um lembrete de que os espaços verdes do cotidiano — aqueles que estão logo ali na esquina — podem, de fato, ser os mais transformadores de todos.
Pesquisas confirmam a importância da “natureza próxima” (nearby nature). A pesquisadora Kathleen Wolf, da University of Washington, reuniu um extenso acervo de estudos sobre o que ela chama de “metro nature” — o verde presente nas ruas, nos pequenos parques e nos corredores verdes dos bairros[1]. Também incluem-se nessa categoria jardins, pátios, telhados verdes ou áreas rurais próximas às cidades.
Os estudos mostram que esses espaços cotidianos fazem diferença real: melhoram nosso humor, ampliam nossa capacidade de concentração e ainda ajudam a reduzir bilhões em custos sociais e de saúde — muitas vezes mais do que viagens ocasionais para destinos de natureza distantes.
Dr Timothy Beatley[2] descreve essa ideia como “pirâmide da natureza” (nature pyramid). Assim como uma alimentação saudável depende de frutas e verduras todos os dias, nosso bem-estar depende de pequenas doses regulares de natureza, complementadas por experiências mais imersivas de tempos em tempos.
Um estudo realizado no Reino Unido com 20 mil pessoas mostrou que passar 120 minutos por semana na natureza — em média apenas 17 minutos por dia — já é suficiente para melhorar significativamente a saúde e o bem-estar, seja em um parque do bairro ou em uma caminhada na floresta.[3]
Não se trata de aventuras extraordinárias ou de trilhas épicas. Trata-se de algo muito mais simples: manter um contato constante e cotidiano com o verde que existe perto de casa.
Wolf, K.L. (2008). Metro nature services: Functions, benefits and values. In S.M. Wachter and E.L. Birch (eds), Growing Greener Cities: Urban sustainability in the twenty-first century. Philadelphia, PA: University of Pennsylvania Press.
Beatley, T. (2012) Exploring the Nature Pyramid. The Nature of Cities. Available at: https://www.thenatureofcities.com/2012/08/07/exploring-the-nature-pyramid/ (accessed January 2026).
White, M.P., Alcock, I., Grellier, J., Wheeler, B.W., Hartig, T., Warber, S.L. et al. (2019) Spending at least 120 minutes a week in nature is associated with good health and wellbeing. Scientific Reports 9: 7730. DOI: https://doi.org/10.1038/s41598-019-44097-3
A natureza como cuidadora
Antropólogos usam o termo cuidado aloparental para designar pessoas que compartilham o cuidado de uma criança: avós, irmãos mais velhos, vizinhos, amigos ou cuidadores profissionais. Com o tempo, comecei a pensar nas árvores e nos parques dessa forma também. Foram eles que acolheram meu filho quando eu não conseguia acalmá-lo. Foram eles que me deram sustentação quando eu me sentia vulnerável. E foram eles que ampliaram nosso mundo quando as paredes do apartamento pareciam se fechar.
Meu trabalho investiga justamente essa ideia: a de que a natureza urbana pode funcionar como uma espécie de medicina — algo que deveríamos até prescrever. Melhor ainda seria se ela estivesse tão integrada ao nosso cotidiano que nem precisássemos procurá-la. No entanto, em muitas comunidades, o verde ainda é tratado como um luxo — e não como uma necessidade. Isso significa que muitos pais e cuidadores atravessam o início da vida com seus filhos sem esse apoio silencioso e cotidiano. E significa também que muitos bebês estão crescendo desconectados da natureza.
Em um estudo publicado em 2025, o pesquisador Miles Richardson analisou mais de dois séculos de relação entre seres humanos e natureza. A conclusão é preocupante: nossa conexão coletiva com a natureza diminuiu cerca de 60% desde 1800. Segundo o modelo, um dos principais fatores por trás desse declínio é simples — e poderoso: os pais deixaram de transmitir aos filhos uma relação cotidiana com a natureza.[4]
Richardson, M. (2025) Modelling nature connectedness within environmental systems: Human–nature relationships from 1800 to 2020 and beyond. Earth 6(3): 82. DOI: https://doi.org/10.3390/earth6030082
Richardson chama esse processo de “extinção da experiência”: a perda gradual do contato direto e significativo com o mundo vivo ao nosso redor. Aquilo que observamos, valorizamos e incorporamos ao nosso dia a dia é justamente o que nossos filhos herdam. Por isso, envolver famílias e pais em experiências com a natureza — fortalecendo essa transmissão entre gerações — é essencial.
Para muitas famílias que vivem em megacidades densas, regiões áridas ou comunidades marcadas por desigualdades históricas, até mesmo um pequeno pedaço de grama pode ser raro. O modelo de Richardson também mostra que simplesmente criar alguns parques não é suficiente. Reverter esse declínio exige cidades muito mais verdes — justamente onde hoje vive a maior parte da população — e famílias que integrem a natureza ao cotidiano desde cedo.
As políticas públicas começam a caminhar nessa direção. Mas, como o próprio Richardson argumenta, precisamos pensar em termos realmente transformadores. Não basta aumentar em 30% a arborização urbana ou a criação de áreas verdes; é preciso multiplicar por dez a presença da natureza no nosso dia a dia. É essa escala de mudança que transforma cultura — e não apenas políticas públicas. Muito se fala sobre reconectar as crianças com a natureza. Mas, como Richardson lembra, talvez a tarefa seja ainda mais simples: não desconectá-las.
Um bebê que nasce hoje é biologicamente muito parecido com um bebê nascido em 1800. Ele chega ao mundo curioso, atento e naturalmente fascinado pela vida ao redor. Eu vejo isso no meu próprio filho, que estende a mão para tocar folhas e observa formigas com uma concentração absoluta. O desafio não é despertar esse encantamento. É preservá-lo à medida que as crianças crescem.
E tudo começa com os pais.
Janelas de neuroplasticidade que moldam nossa relação com a natureza
Durante o primeiro encontro do Van Leer Fellowship, aprendi com a neurocientista Susana Carmona que a gravidez abre uma rara janela de neuroplasticidade: o cérebro se reorganiza para o cuidado e novas conexões podem surgir. Se aproveitarmos esse momento para criar pequenos hábitos ligados à natureza — uma caminhada matinal até a pequena floresta do bairro, uma pausa para ouvir o canto dos pássaros, um “boa noite” para a lua antes de dormir — esses padrões têm mais chances de permanecer mesmo no turbilhão do pós-parto. Eles acabam ditando o ritmo em que nossos filhos crescem.
Mas o início da parentalidade também é caótico — um caos bonito, mas profundamente exaustivo. As melhores intenções desaparecem às três da manhã, quando você acorda pela quinta vez e prefere nem olhar o relógio. É aí que a tecnologia pode ajudar — não para substituir a natureza, mas para nos lembrar de voltar a ela.
Certa manhã, ainda sonolenta, abri o NatureDose, um aplicativo que ajudei a desenvolver para acompanhar o tempo de exposição à natureza. O número que apareceu era constrangedoramente baixo. Então defini uma meta simples: 20 minutos de natureza por dia. Algo possível. Nada heroico. Ver aqueles minutos acumulando transformou uma intenção vaga em um ciclo de hábito: gatilho — a inquietação da manhã; rotina — caminhar com o carrinho de bebê até uma pequena floresta próxima da minha casa; recompensa — um bebê mais calmo, e uma mãe também.
Como Van Leer Fellow, é justamente isso que venho investigando: será que uma simples “prescrição de natureza” durante a gravidez — 20 minutos por dia em contato com a natureza — pode realmente funcionar? A ideia é que ela seja acompanhada por um monitoramento objetivo do tempo passado ao ar livre, para que pais exaustos não precisem se lembrar de nada, e por breves reflexões sobre o que foi observado — porque são os momentos, e não os minutos, que aprofundam nossa conexão com a natureza. A hipótese é tão antiga quanto a parentalidade: se cultivarmos hábitos de contato com a natureza durante a janela de neuroplasticidade da gravidez, será mais provável que eles se mantenham nos meses delicados após o nascimento. E, assim, nossos filhos crescerão dentro desses ritmos.
A primeira infância também é uma janela única. As experiências do meu filho provavelmente formarão um vínculo profundo e duradouro com o mundo natural. Quando ele encosta sua pequena mão na casca do freixo, gosto de imaginar aquela árvore observando nós dois — assim como talvez tenha observado meus avós e, quem sabe, um dia observará os filhos dele. As grandes áreas verdes de preservação são importantes, claro. Mas, quando se trata de transmitir essa relação entre gerações, é o verde do cotidiano que realmente importa: aquela pequena floresta da esquina que, para uma criança pequena, parece infinita — e que, para um pai ou uma mãe, se torna um refúgio.
Se queremos que as crianças se sintam em casa na natureza, precisamos garantir primeiro que os pais também se sintam assim — especialmente durante a gravidez, quando se formam novos hábitos. Se a pergunta é como interromper um declínio que já dura duzentos anos, a resposta não está em teorias abstratas, mas no viver. Tudo começa de forma simples. Saia de casa. E leve a próxima geração com você.







