Quando eu estava no final dos meus vinte anos e pesquisava como o cérebro muda por meio da terapia e da meditação, uma pergunta simples de uma colega me pegou de surpresa: como a gravidez transforma o cérebro humano?
Eu trabalhava como pesquisadora de pós-doutorado em Barcelona, conduzindo uma série de estudos longitudinais de neuroimagem. Com uma de minhas alunas de doutorado, Elseline Hoekzema, investigávamos como a terapia cognitiva remodelava o cérebro de crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Com outra, Erika Barba-Müller, analisávamos como a prática diária de meditação podia transformar o cérebro humano. Nenhuma de nós tinha filhos, mas, um dia, Erika nos contou que estava planejando engravidar. Nós a parabenizamos e, em meio a uma conversa que transitava entre temas pessoais e de trabalho, ela disse: “E se estudássemos o cérebro das mães?” Foi então que percebemos que nenhuma de nós sabia praticamente nada sobre o assunto.
Fomos procurar no PubMed. O que encontramos foram muitos artigos sobre animais, principalmente roedores, e praticamente nada sobre seres humanos. Então, nós três começamos a desenhar um estudo para responder a essa pergunta. Quando Erika engravidou, ela passou a participar como uma das participantes do experimento. Elseline e eu fizemos parte do grupo de controle. Esse projeto se tornou o tema da tese de Erika, que eu supervisionei.[1]
Barbra-Müller Hoepfner, E. (2015) Morphologic brain changes induced by pregnancy. A longitudinal magnetic resonance imaging study. PhD thesis. Autonomous University of Barcelona. Available at: https://www.tdx.cat/bitstream/handle/10803/319448/ebmh1de1.pdf (accessed January 2026).
Avaliamos o cérebro das mulheres antes da concepção e novamente após o parto. Também incluímos um grupo de mulheres que nunca haviam engravidado nem tido filhos. Os resultados nos surpreenderam.
Descobrimos que as mudanças no cérebro de uma mulher durante o período da matrescência são extremamente profundas — mais do que eu jamais havia visto. Para efeito de comparação, se você utiliza algoritmos de inteligência artificial para analisar uma imagem estrutural do cérebro e determinar se a pessoa tem esquizofrenia, eles acertam cerca de 60% das vezes. Mas, ao comparar duas imagens do cérebro de uma mesma mulher, conseguimos dizer com 100% de precisão se ela passou ou não por uma gravidez entre a captura das imagens.
Mas não deveria ser surpreendente que a gestação transforme tão profundamente o cérebro de uma mulher. Quase todos os sistemas do corpo humano precisam se adaptar durante a gravidez, incluindo o sistema imunológico e o cardiovascular — por que o cérebro seria diferente? O que realmente nos surpreendeu foi que ninguém havia investigado essa questão antes, especialmente considerando que os resultados eram tão sólidos e consistentes, e que suas implicações para os cuidados perinatais eram revolucionárias.
As mudanças no cérebro são parte essencial do processo de se tornar mãe
Pesquisas longitudinais que acompanham os efeitos da gravidez e da maternidade são especialmente desafiadoras. Começamos o projeto em 2008, e os resultados só foram publicados em 2017. [2] Durante esse período, eu mesma me tornei mãe.
Hoekzema, E., Barba-Müller, E., Pozzobon, C., Picado, M., Lucco, F., García-García, D. et al. (2017) Pregnancy leads to long-lasting changes in human brain structure. Nature Neuroscience 20: 287–96. DOI: https://doi.org/10.1038/nn.4458
Nesse estágio da pesquisa, eu já sabia que a gravidez mudaria meu próprio cérebro de forma profunda. Em certo sentido, era uma ideia assustadora — mas também era reconfortante ver que isso acontece com todas as mulheres. É um pouco como o período da adolescência: é amedrontador sentir-se mudando, mas saber que se trata de uma transição normal pode ajudar. É uma fase necessária de crescimento e transformação, que permite encontrar a si mesma e criar significado.
Descobrimos que, durante a gravidez, ocorre uma queda acentuada na massa cinzenta no cérebro da mulher. Muitas pessoas interpretam isso como algo negativo, mas não é — mudanças semelhantes também acontecem na adolescência. Há um equívoco comum de que tornar-se mãe prejudica o funcionamento cognitivo — a famosa ideia de “baby brain” —, mas foi exatamente o contrário que constatamos. Não houve nenhuma associação entre as alterações cerebrais e os resultados em testes cognitivos.
Em vez disso, descobrimos que essas mudanças cerebrais estavam associadas à intensidade do vínculo mãe-bebê — quanto maior a alteração, mais forte o vínculo. De forma poética, gosto de explicar isso como limpar um terreno após a colheita, para que novas sementes possam ser plantadas e algo diferente floresça. A massa cinzenta se recupera parcialmente após o parto, mas a reconstrução acontece em ritmos distintos.
Contudo, certas áreas do cérebro parecem não retornar aos níveis anteriores, incluindo regiões envolvidas na percepção de si mesma, na empatia e no processamento interno. Isso vai de encontro ao que se sabe na psicologia e no senso comum: quando um bebê nasce, nasce também a mãe, e parece que você não se enxerga da mesma forma que antes. Também condiz com minha experiência pessoal. Meu primeiro sentimento ao olhar para minha filha foi o de uma divisão, como se meu eu tivesse se fragmentado no momento do parto.
Quando minha filha ria, eu sentia a alegria dela na própria barriga. Quando ela ficava doente, a dor dela ressoava no meu próprio corpo. A sincronia, a fusão, é algo impressionante. Você tem a sensação de que não é mais a única protagonista no filme da sua vida.
Pesquisa traz oportunidade de revolucionar os cuidados perinatais
Logo percebemos que as mudanças profundas que detectamos em nosso primeiro estudo eram apenas a ponta do iceberg. Muitos outros questionamentos surgiram. Qual é, por exemplo, o papel dos hormônios nessas alterações? Como as mudanças no cérebro se relacionam com mudanças no sistema cardiovascular ou no sistema imunológico? O que acontece em gestações subsequentes? E qual é o papel dos pais e de outros cuidadores importantes? Estamos apenas começando a entender partes de um quebra-cabeça muito maior.
Também enxergamos um grande potencial para transformar a forma como oferecemos suporte à saúde mental das mães após o parto. Atualmente, a depressão pós-parto é diagnosticada por meio de entrevistas clínicas. Mas se conseguirmos mapear como ocorrem as mudanças neurotípicas no cérebro durante a gravidez e compará-las com as alterações em mães com depressão pós-parto, poderemos melhorar nossa capacidade de diagnosticar e prevenir a doença.
Já estamos avançando na busca por respostas para algumas dessas questões. Por exemplo, atualmente analisamos dados do Projeto BeMother[3], que co-lidero com Óscar Vilarroya, meu orientador de doutorado. Esses dados mostraram como as mudanças cerebrais são moduladas pelos níveis de estrogênio e como essas alterações podem prever a qualidade do vínculo entre mãe e bebê — uma conexão que depende diretamente do bem-estar materno.
BeMother. (2025) Welcome to BeMother Project (BabyBrain). Available at: https://bemother.eu/en/ (accessed January 2026).
Juntamente com Nina Miolane, especialista em IA da University of California Santa Barbara (UCSB), estamos criando o primeiro “gêmeo digital” do cérebro materno.[4] Trata-se de uma réplica virtual de um cérebro real — treinada com dados reais — que nos permitirá simular, monitorar e prever alterações cerebrais a partir de determinadas variáveis. Esse recurso pode servir como ferramenta educacional e, futuramente, será integrado a aplicativos de gravidez para ilustrar como o corpo da mulher, incluindo o cérebro, se adapta durante esse período.
Geometric Intelligence Lab. (2025) Our project “An AI Model of the Maternal Brain” is awarded $1M funding by the Chan Zuckerberg Initiative. University of California, Santa Barbara. Available at: https://gi.ece.ucsb.edu/news/our-project-ai-model-maternal-brain-awarded-1m-funding-chan-zuckerberg-initiative (accessed January 2026).
Estamos em contato com duas iniciativas internacionais — a Ann S. Bowers Women’s Brain Health Initiative e a Enigma Neuroendocrinology [5][6] — e com pesquisadores de diferentes partes do mundo, da Nova Zelândia aos Estados Unidos, para comparar como as mudanças no cérebro materno podem ser moduladas por diferenças nos contextos sociais e culturais. Trata-se de uma colaboração extremamente empolgante com Emily Jacobs e Magdalena Martínez, da UCSB.
Ann S. Bowers Women’s Brain Health Initiative. (2025) Maternal Brain Project. University of California, Santa Barbara. Available at: https://wbhi.ucsb.edu/our-work/projects/the-maternal-brain-project (accessed January 2026).
Enigma. (2025) Enigma Neuroendocrinology. University of Southern California. Available at: https://enigma.ini.usc.edu/ongoing/enigma-neuroendocrinology/ (accessed January 2026).
Atualmente, estamos buscando inscrever milhares de participantes para esses estudos globais. Trata-se de um compromisso significativo, pois coletamos muitos dados — questionários, avaliações neuropsicológicas, dados clínicos, biomarcadores de fluidos, hormônios — desde o período pré-concepção, passando pela gestação, até o pós-parto. O custo também é elevado, por isso precisamos de apoio contínuo de financiadores para viabilizar o projeto.
Até agora, descobrimos que as mulheres se mostram muito motivadas a participar. Quando percebem o quão pouco se sabe sobre as mudanças cerebrais na maternidade, engajam-se movidas por um sentimento de sororidade, contribuindo para ampliar esse conhecimento. Frequentemente, ao darem à luz, nos enviam uma foto do hospital com o bebê. É incrível sentir-se parte desse momento de suas vidas. Cada imagem, cada exame e cada história nos ajuda a compreender como a maternidade nos transforma.








