Depois de derrotar Portugal nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022, a seleção marroquina comemorou em campo dançando com suas mães. Aquilo me tocou profundamente, porque era assim que eu costumava comemorar com a minha mãe quando eu era jogador de futebol. Foi um momento de alegria, uma celebração da maternidade — aqueles jogadores tiraram suas mães da arquibancada e as colocaram no centro do campo em uma Copa do Mundo, com 291 milhões de pessoas assistindo ao vivo.[1]
Inside FIFA. (2025) FIFA World Cup Qatar 2022: Global Engagement & Audience Report. Executive summary. Available at: https://inside.fifa.com/tournament-organisation/audience-reports/qatar-2022 (accessed January 2026).
Mas eu não fui o único a me emocionar com aquelas imagens — elas se espalharam rapidamente pelo mundo. Foi então que senti uma onda de entusiasmo, porque enxerguei a resposta para uma pergunta que vinha me fazendo havia muito tempo: por que as maiores iniciativas de saúde pública, que movimentam bilhões de dólares, conseguem alcançar apenas uma parte da população que pretendem atender? Como conectar a pesquisa em saúde pública ao restante da humanidade?
Para alcançar as pessoas, é preciso falar a partir daquilo que realmente importa para elas. O futebol é uma linguagem verdadeiramente global e a maior família do mundo, com cerca de seis bilhões de fãs. Ele ultrapassa religiões, governos e profissões — ultrapassa tudo. Pensei: se conseguirmos mobilizar a família do futebol para apoiar as mães, poderemos transformar a saúde da humanidade — uma gestação de cada vez. Foi naquele momento que nasceu a ideia do FC Mother.
Duas descobertas fundamentais sobre a saúde materna
Eu já trabalhava há anos com iniciativas voltadas à saúde materna antes de ter a ideia do FC Mother. Queria seguir para onde os dados das pesquisas apontavam, e o Vaticano me convidou a montar um laboratório. Durante dois anos, trabalhamos com especialistas de Harvard, do Institute for Health Metrics and Evaluation, parteiras, profissionais de saúde mental, teólogos e humanitários — algumas das pessoas mais extraordinárias que já conheci na vida.
Descobrimos dois achados fundamentais. Primeiro, ao medir os anos de vida perdidos em todas as áreas da saúde global, constatamos que os transtornos maternos e neonatais — como o estresse crônico durante a gravidez e o parto prematuro — são a maior causa de anos de vida perdidos no mundo: 194 milhões de anos de vida perdidos todos os anos [2]. Isso é mais do que doenças cardíacas, AVC, câncer — ou qualquer outra causa.
FC Mother. (2025) World Cup of Healing Report 2025. Available at: https://drive.google.com/uc?export=download&id=1AmSORRRtdTDerlA4uopWTp7K9Iz8VXmb (accessed January 2026).
Muitas pesquisas sobre saúde materna terminam no momento do parto: se a mãe sobreviveu e o bebê também, considera-se que o objetivo foi alcançado. No entanto, quando se observa o curso completo da vida, surgem outras questões importantes. Uma mulher que desenvolve diabetes gestacional, por exemplo, tem cerca de dez vezes mais probabilidade de apresentar diabetes tipo 2 mais tarde [3]. Ao mapearmos cada sintoma pré-natal e seus efeitos ao longo da vida, chegamos a uma conclusão clara: a falta de apoio adequado à saúde materna é hoje o maior problema de saúde do mundo.
Diaz-Santana, M.V., O’Brien, K.M., Park, Y-M.M., Sandler, D.P. and Weinberg, C.R. (2022) Persistence of risk for Type 2 diabetes after gestational diabetes mellitus. Diabetes Care 45(4): 864–70. DOI: https://doi.org/10.2337/dc21-1430
Nossa segunda conclusão foi que os fatores clínicos são, na verdade, minoritários quando se trata da saúde das mães. Cerca de 80% está relacionado a fatores sociais. E, se 80% do problema é social, isso significa que os amigos, a família e a comunidade em torno das mães são uma parte essencial da solução. A gravidez é um esporte de equipe — é isso que os dados nos mostram. No entanto, colocamos toda a responsabilidade sobre as mulheres. Em vez disso, precisamos construir uma rede de apoio ao redor delas.
Quando publicamos nosso white paper [4], imaginei que o mundo reagiria dizendo algo como: “Este é um problema que pode ser enfrentado. Sabemos quem está grávida, esse grupo representa menos de 5% da população e a gestação dura apenas nove meses.” Em outras palavras, não parecia algo tão complicado de abordar. Mas isso não aconteceu. Foi então que percebi que ainda faltava construir a infraestrutura necessária para transformar essa ideia em ação — e eu não fazia ideia de como fazê-lo, até ver os jogadores marroquinos comemorando com suas mães.
Square Roots and Harvard T.H. Chan School of Public Health. (2019) Improving Global Health through Better Maternal Environments (White Paper). Available at: https://drive.google.com/file/d/1oOHHSA-KQT9_J0FNdw45UDWBPOfY4pUB/view (accessed January 2026).
Transformando o apoio às mães em um jogo de equipe
A força do futebol está no fato de que existe um clube em praticamente todas as cidades do mundo. Essa presença cria uma relação próxima e poderosa com as pessoas. A proposta do FC Mother é mobilizar esses clubes para convidar mulheres grávidas para encontros especiais em suas comunidades. Nesses encontros, elas participam gratuitamente do programa, conhecem outras mulheres grávidas e também mães mais experientes da mesma cidade, criando redes de apoio e troca de experiências.
Nessas sessões, as mulheres grávidas são convidadas a refletir sobre quem faz parte de sua rede de apoio. A primeira camada é formada pelos serviços de saúde pública — parteiras, agentes comunitários de saúde e doulas. A segunda inclui amigos e familiares, como irmãs, parceiros, sogras ou outras pessoas próximas. As participantes também são incentivadas a pensar na pergunta: “De que tipo de ajuda você gostaria de receber?” Muitas vezes, tratam-se de necessidades bastante práticas, como apoio nas tarefas domésticas, ajuda com o cuidado das crianças ou alguém que possa oferecer transporte quando necessário.
No novo protocolo do programa, chamado “Assists”, a própria mãe escolhe quem fará parte da sua equipe e quais desafios precisa resolver durante a gravidez. A iniciativa utiliza recompensas ligadas ao futebol e as plataformas dos clubes para mobilizar a base de torcedores. Quando alguém ajuda a resolver uma das necessidades da mãe, recebe um “assist” — termo do futebol em inglês usado quando um jogador faz o passe para um companheiro de time marcar o gol. A proposta é transformar essas “assistências” em um sistema de incentivo em torno do apoio às mães. Os clubes, por sua vez, oferecem recompensas às pessoas que acumulam mais “assists”, como ingressos para jogos, camisetas ou a oportunidade de conhecer os jogadores.
Essa ideia vem sendo testada em parceria com o clube de futebol Flamengo, que tem quase 50 milhões de torcedores. O projeto foi desenhado como um ensaio clínico, ao longo de um período de 1.000 dias — da gravidez até o segundo aniversário da criança. Participam da iniciativa 79 mulheres grávidas, além de uma equipe formada por parteiras, médicos, enfermeiros e especialistas em saúde mental. No grupo de conversa da plataforma, onde as mães interagem, já foram trocadas milhares de mensagens. A iniciativa ganhou impulso rapidamente. Como relatou uma das participantes:
Passei muito tempo reunindo grupos de mães em diferentes partes do mundo e sei como isso pode ser difícil. Muitas mães estão extremamente ocupadas e frequentemente se sentem sobrecarregadas. Mas houve algo de muito diferente quando essa iniciativa foi realizada em parceria com um clube de futebol e sua base de torcedores. Os parceiros dessas mulheres também se envolveram com entusiasmo e transformaram a apreensão inicial em apoio e cuidado — foi algo muito bonito de ver. Para as mães e suas famílias, tem um significado especial serem reconhecidas e celebradas pelo clube local que apoiam, no centro do campo. A experiência também mostrou que envolver clubes de futebol como parceiros na saúde materna pode criar uma situação em que todos ganham — e que pode funcionar em grande escala.

A Copa do Mundo da Cura
No futebol, a Copa do Mundo é a competição máxima — até quem não acompanha o esporte acaba se envolvendo. Com os resultados do projeto-piloto realizado com o Flamengo em mãos, a iniciativa passou a buscar parcerias com cidades-sede da Copa do Mundo de 2026 interessadas em criar legados de impacto na área da saúde. A cidade de Monterrey, no México, foi a primeira a se tornar parceira. Ao longo do próximo ano, o projeto também será expandido para outras três cidades-sede nos Estados Unidos e uma no Canadá. Nessas cidades, o programa FC Mother será implementado e, nos próximos cinco anos, elas irão competir para gerar o maior número de “assistências”, recursos e anos de vida saudável para mães dentro da iniciativa chamada The World Cup of Healing.
Nossos principais parceiros de implementação são os comitês organizadores das cidades-sede da Copa do Mundo e os clubes de futebol locais. Eles nos ajudam a envolver mulheres grávidas no programa, recrutar agentes comunitários de saúde e mobilizar torcedores para oferecer apoio social às mães.
Isso exige tempo, esforço e coordenação. O ponto central é que não precisamos construir nada do zero — podemos aproveitar a infraestrutura global do futebol e da Copa do Mundo, convidando as cidades-sede a associar o evento a uma causa realmente significativa, capaz de gerar um impacto em saúde que dure muito além dos 39 dias da competição. A resposta tem sido extremamente positiva. Alejandro Hütt, gerente da cidade-sede da Copa do Mundo de 2026 em Monterrey, acredita que:
The World Cup of Healing é uma plataforma digital, e gostaríamos muito de trabalhar com qualquer cidade interessada em participar da iniciativa. Aproveitando a enorme escala da infraestrutura e do alcance do futebol, queremos construir o maior conjunto de dados do mundo sobre o bem-estar das mães. Os dados anonimizados gerados por meio da nossa plataforma — que começamos a coletar com o grupo piloto no Brasil — formarão a base de um banco de dados de saúde pública de código aberto, desenvolvido em parceria com pesquisadores de centros acadêmicos como Harvard, para que possa ser utilizado por pessoas do mundo inteiro. Também extraímos aprendizados muito práticos simplesmente perguntando diretamente às mães, em comunidades de futebol ao redor do mundo: “Como você está? Como está sua rede de apoio? Do que você precisa?”
Com USD 2 trilhões em capital disponível para investimento de impacto, seis bilhões de fãs de futebol e um número sem precedentes de quatro Copas do Mundo nos próximos cinco anos, nossa plataforma mobiliza um público totalmente novo. Com o apoio de instituições independentes que ajudam a validar nosso impacto, já demonstramos uma forma altamente escalável e muito mais eficiente de apoiar mães em todo o mundo — e de celebrá-las no centro do maior evento esportivo do planeta.







