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Questões sobre Identidade: é preciso aprender a lidar com a injustiça social desde a infância

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Crianças deixam suas próprias impressões nos espaços Baytna. Foto: Bagher Maghsudi.

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Evidências mostram que questões sobre identidade social e racial possuem grande influência em resultados essenciais da vida, dos quais saúde física, mental e financeira fazem parte.[1] Em todo o mundo, pessoas que pertencem a comunidades negras e de minorias étnicas estão sofrendo com o aumento da desigualdade. Começa com a maneira como crianças pequenas experienciam a diferença: crianças de apenas três anos já demonstram internalizar um sentimento de “não pertencimento” baseado em sua identidade.[2]

[1]

Pachter, L.M. and Coll, C.G. (2009). Racism and child health: a review of the literature and future directions. Journal of Developmental and Behavioral Pediatrics 30(3): 255–63. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2794434/#R56 (acesso em Junho 2020).

[2]

Connolly, P. (2009). Developing Programmes to Promote Ethnic Diversity in Early Childhood: Lessons from Northern Ireland, Working Paper 52. The Hague: Bernard van Leer Foundation. Disponível em: https://files.eric.ed.gov/fulltext/ED522532.pdf (acesso em Junho 2020).

Os primeiros anos de formação da criança podem construir uma base sólida de autovalorização e resiliência ou moldá-la para uma vida em que deve estar em constante batalha contra o preconceito e a discriminação. Em nenhum outro lugar isto é mais evidente do que nas experiências vivenciadas por crianças refugiadas.

Elas passam a infância no exílio, deslocadas das comunidades em que viviam. Frequentemente enfrentam preconceito racial e discriminação, difamação por parte de políticos e comportamento agressivo da polícia e agentes responsáveis pelo patrulhamento da fronteira. Na mídia, quase todas as imagens de um refugiado são ameaçadoras ou retratam uma vítima sem ação. Os refugiados são despojados de todas as outras facetas de sua identidade.

Crianças refugiadas internalizam o sentimento de “não pertencimento” desde muito cedo. Lembro-me vividamente das inúmeras vezes em que proprietários se recusaram a alugar uma casa à minha família porque éramos refugiados. Por dias a tristeza tomava conta de nós. Fico pensando se na cabeça do meu filho há algo que poderíamos fazer para diminuir a dor de ter que viver nessas circunstâncias. Desmantelar experiências tão traumáticas na idade adulta requer um profundo trabalho emocional e constante apoio psicossocial, que raramente encontra-se disponível às pessoas.

Crianças refugiadas geralmente crescem em lugares onde sua história, língua e tradições não são compreendidas ou até mesmo propositalmente ignoradas. As suas famílias vivem em condições árduas e desumanas, às vezes por anos, 2 Early Childhood Matters 2020 sem segurança, alimentação de qualidade, educação e saúde. As mulheres que fazem parte dos grupos dirigidos por mim e meus colegas sempre mencionam a sensação de claustrofobia causada pela situação em que vivem. Quando a frase “Eu não consigo respirar” – as palavras finais de George Floyd – se tornou uma convocação para protestos contra a injustiça racial em 2020, eu refleti que há muito tempo escutava sentimentos semelhantes sendo expressos, metaforicamente, sobre a experiência de ser um refugiado.

Criando espaços que respeitem a identidade

Na Refugee Trauma Initiative (RTI), organização que fundei e dirijo, nos preocupamos em criar espaços para que as identidades das famílias e das crianças sejam reconhecidas, respeitadas e celebradas. Compreender e respeitar a origem de cada criança é o fundamento de todo nosso trabalho.

‘Baytna’, nossa intervenção na primeira infância, é baseada nestes valores (baytna significa ‘nossa casa’ em árabe). Nosso treinamento é focado em capacitar facilitadores a incorporarem e disseminarem os valores da intervenção dentro da vida das famílias refugiadas. Ao treinar novos facilitadores, nosso primeiro objetivo é criar um ambiente em que eles se sintam suficientemente seguros para reconhecer e desfazer o preconceito inconsciente que todos nós temos e compreender as formas pelas quais isso poderia impactar o nosso trabalho com crianças refugiadas.

As sessões costumam ser profundamente emocionais e perturbadoras, e exigem um treinador experiente para manter o ambiente protegido e guiar os novos facilitadores, conduzindo-os pelas dificuldades até um espaço de conscientização e comunidade. Em uma destas sessões, uma facilitadora, triste, compartilhou seus sentimentos de ressentimento e julgamento em relação às famílias das crianças que participam de suas sessões. Para ela, foi difícil revelar seus sentimentos, mas esta confissão trouxe a oportunidade de discutir este assunto com os outros colegas. Ela foi amparada por todos naquele momento e o grupo a ajudou a pensar em estratégias para administrar os sentimentos de julgamento quando eles surgissem.

Identity-informed practice helps families reconcile the culture and traditions of their country of origin with their country of asylum
A prática de Identidade-informada ajuda as famílias a reconciliar a cultura e tradições de seu país de origem com seu país de asilo. Foto: Bagher Maghsudi.

Construindo um senso de auto valorização e atuação

A jornada da minha família de Cabul a Londres levou quatro anos. Enfrentamos incontáveis casos de racismo e discriminação, às vezes intencionais, mas muitas vezes decorrentes da falta de compreensão do que tínhamos sofrido em nosso país e da violência das raízes coloniais na história do Afeganistão. Ser um refugiado significa lutar contra forças poderosas e sombrias pelo bem e segurança de sua comunidade.

Ao desenvolver minha própria maneira de trabalhar com crianças e famílias que vivenciaram jornadas semelhantes, reconheci como minha identidade era importante para minha resiliência. Entrar em contato com a história e a tradição de contar estórias do Afeganistão e compreender a coragem e tenacidade de meus próprios pais, que criaram cinco filhos em circunstâncias de extrema dificuldade, curou feridas profundas e alimentou o sentimento de orgulho de minhas raízes.

O trabalho da RTI busca ajudar as crianças a se sentirem valorizadas e respeitadas, para que possam desenvolver uma educação emocional, um senso de autoestima e atuação, que por sua vez proporciona uma rede de apoio para experiências traumáticas. Reconhecer a identidade e a história de crianças que tiveram um começo de vida difícil, e possivelmente continuarão a enfrentar discriminação, pode ser um alicerce importante para ajudar a curar traumas e criar resiliência para os anos que virão.

Identity matters: addressing inequity starts in early childhood | Early Childhood Matters

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