Em diversas partes do mundo, comunidades indígenas deslocadas enfrentam crises econômicas e humanitárias que as obrigam a abandonar suas casas e viver em ambientes desconhecidos. Quando esses grupos se estabelecem em novos territórios, é fundamental que os governos adotem medidas para preservar e apoiar sua cultura, costumes e conhecimento tradicional, incluindo práticas relacionadas à gestação e aos primeiros anos da parentalidade. Criar filhos em seus novos lares traz uma série de desafios e contratempos, que descrevo a seguir. No entanto, também há oportunidades de incorporar tradições e rituais às novas rotinas, promovendo o bem-estar dos pais e facilitando a adaptação dos cuidadores a essa nova realidade.
Estratégias de adaptação dos E’ñepa à vida urbana
Vamos conhecer uma comunidade deslocada: os E’ñepa. Eles foram forçados a deixar seus territórios tradicionais na zona rural da Venezuela e se mudar para o Brasil devido a uma crise humanitária. Todas as manhãs, muitos membros desse grupo indígena acordam e vão às ruas de Boa Vista, capital do estado de Roraima, onde vendem seus artesanatos. Esse trabalho é uma fonte indispensável de renda. Geralmente, eles tentam levar os filhos com eles. Porém, há dias em que isso não é possível, e as crianças precisam ficar sob os cuidados de avós, tias ou irmãos adolescentes. Tradicionalmente, em suas comunidades, esse compartilhamento de cuidados é a norma – redes ampliadas de cuidadores ajudam pais ou responsáveis no cuidado das crianças. Era assim que viviam quando moravam fora da cidade, entre o seu próprio povo. Mas, no meio urbano, as coisas podem ser diferentes. Para os pais indígenas que residem em abrigos (moradias temporárias fornecidas pelo governo) destinados a grupos deslocados, deixar os filhos menores aos cuidados de irmãos mais velhos pode gerar problemas. Essa prática pode ser caracterizada como “abandono de incapaz” segundo a legislação brasileira.
A vida urbana apresenta outros desafios para os pais dessas comunidades. Além de não falarem português, eles se deparam com uma cultura que é, em geral, mais “individualizada”. Isso coloca as práticas coletivas tradicionais em confronto, forçando-os a se adaptar e a fazer concessões. Eles também enfrentam um acesso muito mais limitado ao mundo natural, o que representa uma mudança significativa em relação ao seu modo de vida tradicional. Como disse minha sábia mãe: “A cidade não permite que as crianças tenham uma conexão com a natureza para aprender a respeitar os seres que existem no mundo. As crianças criadas na cidade estão sempre brincando com o celular” (Dona Luiza, 75 anos, Macuxi).
Outro desafio para os pais indígenas na cidade é a moradia. As casas parecem “prisões”, por causa dos muros que as cercam. Algumas possuem até cercas elétricas, comumente usadas pela população urbana para se proteger de intrusos. Nas comunidades indígenas, não há muros, o que permite que as crianças brinquem com mais liberdade, desenvolvam habilidades e se conectem com a natureza. Desde cedo, elas aprendem a nadar, subir em árvores, usar flechas e tecer cestos. As crianças aprendem muito enquanto brincam, e isso acontece de forma orgânica, sem que os pais precisem intervir a cada momento. Na cidade, nada disso é possível, e os pais não podem contar com o aprendizado natural de seus filhos. Além de viverem sem paredes, as comunidades indígenas vivem tradicionalmente próximas aos membros da família. O vizinho é sempre um parente – seja um filho, sobrinho ou primo. Eles vivem cercados pela família, e suas casas são construídas e organizadas com esse propósito, criando um ambiente de convivência comunitária.
Quando eles se mudam para a cidade, esse tipo de coabitação muda um pouco. É muito mais difícil para as famílias extensas viverem tão próximas, porque a cidade funciona sob uma lógica completamente diferente. Elas tentam viver perto, mas raramente conseguem morar lado a lado. As pessoas que vivem em abrigos têm mais condições de manter padrões de coabitação baseados em parentesco.
De modo geral, esses padrões de moradia baseados no parentesco são muito úteis, pois, quando os pais precisam sair, sempre há alguém para cuidar das crianças. Ou, se algo acontece com um dos pais, a comunidade assume a responsabilidade pelo cuidado, oferecendo atenção especial. Essa ajuda coletiva é essencial para os pais, e esses vínculos são fundamentais.
Ressignificar as tradições e rituais na cidade
As organizações culturais, conhecidas como associações e abrigos, são os espaços onde as mulheres grávidas e os cuidadores têm a oportunidade de ser tratados com a medicina tradicional dos mais velhos e, em alguns casos, com um xamã. Para os grupos indígenas, o cuidado durante a gravidez é considerado um processo tanto espiritual quanto físico. O xamã atende a essas duas dimensões e recomenda remédios à base de ervas, alimentos específicos e orações para ajudar as novas mães. Às vezes, os xamãs orientam as mulheres grávidas e no período pós-parto sobre como equilibrar a medicina ocidental com as abordagens tradicionais, o que permite que elas se integrem a seus novos ambientes sem abrir mão de suas práticas ancestrais.
Os centros culturais também são os locais em que mulheres mais experientes compartilham sua sabedoria sobre o parto e a criação dos filhos com as mais jovens. Essas mulheres tentam aumentar a confiança das mais novas na preparação para o parto, dizendo-lhes que são resilientes, e também as incentivam a se manter ativas e saudáveis durante a gravidez, além de orientá-las a fortalecer ou preservar sua energia. Esse tipo de informação é transmitido de maneira informal e depende dos espaços coletivos para que o saber seja compartilhado.
Outra troca importante que ocorre entre os anciãos e as novas famílias nesses ambientes coletivos é a transmissão de saberes sobre o cuidado das crianças. Nas comunidades indígenas, o cuidado dos bebês é uma responsabilidade compartilhada. Tanto homens quanto mulheres participam desse processo, com os pais geralmente assumindo a responsabilidade pelos filhos quando a mãe está ocupada. A filosofia de cuidados valoriza a liberdade da criança, com todos na comunidade zelando por ela. Quando essas comunidades se reúnem, os pais têm a oportunidade de aprender e praticar esses ensinamentos com pessoas em quem confiam. Os bebês são cuidados coletivamente, as crianças aprendem a conviver com outros cuidadores, a ouvir outras vozes falando o idioma dos pais, a saborear a comida tradicional – e os pais podem ter um tempo para descansar.
Além de transmitir essas habilidades práticas, os espaços coletivos também se tornam locais para a preservação das tradições espirituais, que oferecem apoio aos pais e cuidadores de crianças pequenas. Uma tradição significativa é a cerimônia em que as crianças recebem um nome indígena, que ocorre aos seis meses de vida entre os E’ñepa. Nesse dia, elas recebem seu primeiro nome, que será mantido até a puberdade. A cerimônia é um evento marcante, pois é quando os bebês recebem seus amuletos de proteção, como colares e pulseiras de miçangas. Acredita-se que esses amuletos protejam a criança e façam parte essencial de sua identidade. Esses rituais têm um propósito social e psicológico forte, reafirmando a identidade cultural e garantindo proteção espiritual, tanto para a criança e sua família quanto para toda a comunidade.
Para oferecer apoio aos cuidadores indígenas deslocados em todo o Brasil — ou às comunidades indígenas deslocadas em qualquer outro lugar — é essencial que as políticas públicas considerem suas culturas e histórias específicas. Ao reconhecer e respeitar seu conhecimento ancestral e suas práticas tradicionais, os cuidadores podem receber o suporte necessário em momentos cruciais da vida, como o momento de dar à luz e os primeiros anos da parentalidade. Preservar esses rituais e costumes é fundamental tanto para os novos pais quanto para as crianças pequenas, pois esses elementos oferecem um forte senso de identidade, apoio comunitário e continuidade durante um período que, por si só, já é desafiador.








