O Early Childhood oferece uma orientação valiosa para a formulação de políticas governamentais, pois está situado na intersecção de diversos serviços, que vão desde a educação até a saúde, assistência social e infraestrutura pública. Durante o meu mandato como prefeita de Caruaru, entre 2017 e 2022, um município no estado de Pernambuco, utilizei o Marco Legal da Primeira Infância – aprovado em 2016 – como base para desenvolver políticas municipais intersetoriais [1].
Government of Brazil. (2016) Marco Legal da Primeira Infância. Law no. 13.257, 8 March. Available at: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/lei/l13257.htm (accessed November 2023).
Tais políticas demonstraram que apoiar as crianças também significa apoiar seus cuidadores, que frequentemente são as mulheres. As responsabilidades de cuidar geram pressão e estresse para essas mulheres, agravando ainda mais as desigualdades que elas já enfrentam. Em Caruaru, por exemplo, aprovamos uma lei para garantir assistência às mulheres grávidas antes e após o parto [2]. Construímos uma nova maternidade e 16 centros de educação infantil, triplicando o número de crianças atendidas e possibilitando que mais mães tivessem acesso a cursos para se qualificarem profissionalmente.
Prefeitura de Caruaru. (2017) Law no. 5.951, 2 October. Disponível. https://caruaru.pe.gov.br/wpcontent/uploads/2018/06/113-Humaniza%C3%A7%C3%A3o-daassist%C3%AAncia-a-mulher-LEI-5.951-de-02.10.2017.pdf (accessed November 2023).
Também fizemos uma parceria com o programa Urban95 da Fundação Van Leer para melhorar a coleta e o compartilhamento de dados sobre educação, saúde e assistência social, o que nos permitiu identificar melhor as mulheres que precisavam de apoio. Em 2020, a Fundação Abrinq reconheceu essas e outras conquistas concedendo ao município o selo “Prefeita Amiga da Criança” [3].
Fundação Abrinq. (sem data) Programa Prefeito Amigo da Criança. Available at: https://www.fadc.org.br/o-que-fazemos/programa-prefeito-amigo-da-crianca (accessed November 2023).
Mas é possível replicar essa estratégia política em uma escala mais ampla? Nas eleições estaduais de 2022, fui eleita governadora de Pernambuco. Juntamente com a Vice-Governadora Priscila Krause, nos tornamos as primeiras mulheres a liderar uma administração estadual exclusivamente feminina na história do Brasil. No entanto, logo percebemos que a transição de governar do nível municipal para o nível estadual apresenta desafios que vão além da simples necessidade de atender a uma população maior. Trata-se também de lidar com as diferenças de contexto presentes na região, onde muitas pessoas vivem em condições que aumentam significativamente seus níveis de vulnerabilidade.
Enfrentar desafios a nível estadual para garantir um começo de vida promissor para todas as crianças
Nossa missão é garantir um atendimento completo e integrado a todas as crianças de Pernambuco, levando em consideração o desenvolvimento infantil em todas as suas diferentes dimensões. Isso inclui não apenas as crianças em si, mas também seus cuidadores e os ambientes nos quais estão inseridas. Nosso objetivo é oferecer intervenções e serviços que fortaleçam a capacidade de mães em situações vulneráveis, de modo que possam proporcionar aos seus filhos nutrição adequada, estímulos, amor e proteção contra o estresse e a violência.
Nós sabíamos que precisávamos iniciar esse processo conhecendo melhor as experiências vividas por crianças e mulheres no estado. Muitas das estatísticas são desanimadoras. A pobreza aumentou mais em 2021 em Pernambuco do que em qualquer outro estado brasileiro, subindo mais de 8 pontos percentuais em apenas um ano – resultando em mais de 800 mil pessoas retornando à condição de pobreza [4]. Apenas 32,6% das gestantes pernambucanas realizaram pelo menos sete exames médicos durante a gravidez, conforme recomendado pelo Ministério da Saúde. A taxa de mortalidade infantil do estado é elevada – 12,42 para cada 1000 nascidos vivos em Pernambuco, em 2021 [5] – e sabemos que 70% dessas mortes poderiam ter sido evitadas. Apenas 17,7% das crianças com 3 anos ou menos frequentam berçários ou creches, o menor percentual entre os estados da Região Nordeste do Brasil [6].
FGV Social. (2022) Mapa da Nova Pobreza. Available at: https://cps.fgv.br/pesquisas/mapa-da-nova-pobreza (accessed November 2023).
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (2021) Cidades. Available at: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pe/pesquisa/39/30279.
Conselho Nacional de Justiça. (2019) Pacto Nacional Pela Primeira Infância. Available at: https://www.cnj.jus.br/programase-acoes/pacto-nacional-pela-primeirainfancia/ (accessed November 2023).
O acesso a serviços de cuidados infantis de alta qualidade tem demonstrado aumentar a participação das mulheres no mercado de trabalho [7], por essa razão acreditamos que esse déficit de creches contribui para perpetuar as altas taxas de pobreza. Em Pernambuco, as mulheres são o grupo demográfico com maior probabilidade de viver na pobreza – com uma taxa de 52,3% em 2021 – seguido por crianças de zero a 9 anos de idade [8]. A disparidade de gênero é evidente em todo o Brasil, onde 19,3% das famílias chefiadas por mulheres enfrentaram insegurança alimentar grave em 2022, em comparação com 11,9% das famílias chefiadas por homens [9].
Centro de Desenvolvimento da OCDE. (2014) Unpaid Care Work: The missing link in the analysis of gender gaps in labour outcomes. Available at: https://www.oecd.org/dev/development-gender/Unpaid_care_work.pdf (accessed November 2023).
FGV Social. (2022) Mapa da Nova Pobreza. Available at: https://cps.fgv.br/pesquisas/mapa-da-nova-pobreza (accessed November 2023).
Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN). (2022) II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da COVID-19 no Brasil : II VIGISAN. São Paulo: Fundação Friedrich Ebert/Rede PENSSAN. Available at: https://www12.senado.leg.br/noticias/arquivos/2022/10/14/olheestadosdiagramacao-v4-r01-1-14-09-2022.pdf (accessed November 2023).
O caminho a seguir para a primeira infância em Pernambuco
Dentro dessas estatísticas, encontram-se inúmeras e variadas histórias pessoais, por isso nosso Primeiro Plano Estadual para a Primeira Infância se inicia com a escuta – da sociedade civil, dos governos municipais, das mulheres e das crianças. Prevemos que esse plano incluirá ações intersetoriais, desde a fase pré-natal até a rede de apoio à criança. Ele identificará os gargalos e implementará soluções, desde a construção de maternidades até a criação de 60 mil novas vagas em creches em todo o estado, juntamente com a melhoria da qualidade da educação infantil em parceria com os municípios. A partir de novembro de 2023, submetemos à aprovação um projeto de lei para o “Mães de Pernambuco”, um programa de transferência condicionada de renda para mulheres em situação de pobreza que têm filhos de até 6 anos de idade, o qual também oferece qualificação profissional e escolar.
Estes são apenas os primeiros passos da nossa jornada. É nosso dever, como representantes do povo, garantir cidadania e dignidade até mesmo àqueles que ainda não têm voz para falar por si próprios. O apoio ao desenvolvimento das crianças começa com a garantia da saúde e do bem-estar das mulheres pernambucanas, para que elas tenham capacidade de proporcionar aos seus filhos um ambiente mais seguro e acolhedor.









