• Policy & Practice

Descolonizar políticas públicas para oferecer apoio aos cuidadores no Brasil

No Tambor de Crioula os dançarinos constroem um círculo de cuidados literais e metafóricos

minute read

Featured in Journal 2023

Available Languages Available in:

Prefer another language?

O Tambor de Crioula em ação. Foto: Natalia Correa

minute read

Available Languages Available in:

Do you want this article available in another language?

“Hoje à noite tem Tambor de Crioula!” Quando Hadassa nasceu, Dona Maria rezou para São Benedito, pedindo que fortalecesse os pulmões e músculos fracos de sua neta. Agora, que Hadassa está feliz e saudável, é hora de retribuir ao santo com ritmo e dança. Dona Maria chamou toda a comunidade – e seus tambores – para se reunirem.

A filha de Maria, Meire, chega cedo com Hadassa, agora com 18 meses. A menina está vestida como a mãe, usando uma saia longa de chita, turbante e colares cerimoniais. Elas se arrumaram meticulosamente, pentearam os cabelos e tomaram banho como sinal de respeito a Dona Maria e São Benedito, mas estão calçando apenas chinelos nos pés. É que quando os tambores começarem, seus pés descalços poderão tocar o chão de terra batida. Hadassa gosta de sentir a terra sob seus pés.

Enquanto cerca de 50 batuqueiros e dançarinos se preparam para o evento nessa pequena praça em São Luís do Maranhão, Maria tira Hadassa do colo de Meire. Ela caminha com a menina, apontando as plantas ao redor do pequeno jardim da comunidade formada por descendentes fugitivos de africanos escravizados. Duas meninas mais velhas perguntam a Meire se podem ensinar os diferentes ritmos a Hadassa. Uma delas mostra à criança como tocar o tambor, enquanto a outra gira, fazendo sua saia branca e esvoaçante rodar em torno dela em um turbilhão de risos e dança. Hadassa está eufórica.

Apollo, de três anos, chega com seu avô, trazendo outro tambor. Ele se junta a Hadassa na pista de dança de terra batida. O avô pega cada instrumento, mostrando como os diferentes toques e ritmos fazem com que cada tambor se expresse com vozes diferentes. Apollo bate em um dos tambores com uma batida firme e cheia de orgulho.

Cuidado através do brincar

Muitos africanos, arrancados de suas terras e forçados à escravidão no Brasil, encontraram a esperança da liberdade nas comunidades quilombolas. No estado do Maranhão, essa esperança floresceu junto com o ritmo pulsante do Tambor de Crioula, uma celebração vibrante da emancipação. No coração desse ritual festivo, onde os tambores ecoam e os corpos se movem com alegria, há também um profundo sentimento de gratidão. É uma homenagem a São Benedito, ou São Benedito Manasseri, um santo afro-siciliano que, ao longo do tempo, se tornou associado à divindade iorubá Oxalá.

“Sua bênção, vovó?”, diz a voz de uma criança pequena. Assim como a graça de São Benedito é celebrada através de uma dança alegre, essas palavras se transformam em beijos, abraços e elogios. Como os tambores, o gesto de pedir bênçãos une o passado ao presente, os jovens aos mais velhos. Quando os batuques começam a tocar, uma dança vigorosa abre espaço para os “encantados” – aqueles que partiram para o outro mundo – descerem. Cada criança aqui é criada sob o olhar atento da comunidade, aprendendo a honrar seus ancestrais e valorizar as pequenas bênçãos que compõem o coletivo.

Durante a celebração do Tambor, qualquer um pode inventar um verso, intercalado em um coro com um tom de chamado e resposta – seja uma apresentação, uma canção de louvor aos santos padroeiros ou orixás, uma homenagem às mulheres, uma dificuldade, uma narração de eventos cotidianos, uma despedida. Os ritmos e as rimas carregam a herança do grupo transmitida de geração em geração, sendo repetidos, improvisados e transformados ao longo do tempo.

As crianças, até mesmo os bebês mais novos, estão sempre junto dos adultos brincando, correndo, arrancando risadas e pedindo para repetir tudo outra vez. Cada criança entende que é o ser mais importante naquele momento e naquele lugar.

Um círculo de cuidado para quem cuida

Quando Meire dança no centro do círculo, a atenção de todos se volta para ela. A bebê Hadassa observa com curiosidade e admiração a beleza e a graça dos rodopios e dos passos de sua mãe. Outras mulheres entram no círculo, escolhidas por meio de uma espécie de apontamento feito com o umbigo. Hadassa se junta à dança; os homens tocam uma dezena de ritmos interligados. A comunidade canta e responde em coro, com aplausos e saudações.

No Tambor de Crioula, a comunidade forma um círculo de cuidados, tanto literal quanto metafórico, em torno dos cuidadores. Enquanto as mães desfrutam de um momento despreocupado no centro do círculo, seus bebês são passados de colo em colo. Essa experiência fortalece os laços na vida cotidiana, criando uma rede de apoio mútuo que permite às mães compartilharem seus fardos e encontrarem um lugar seguro para seus filhos enquanto trabalham.

É comum escutar a palavra “brincar” para descrever essas celebrações, a mesma palavra usada para designar as brincadeiras das crianças. Desde o Tambor até jogos de rimas ou fantasias de carnaval, as brincadeiras em todas as idades integram e socializam crianças pequenas em uma comunidade de cuidados. Essa comunidade cria um ambiente de apoio, misturando o sagrado com a dança, brincadeiras, histórias e alegria compartilhada.

Como um espaço para o fortalecimento cultural e pessoal, o Tambor representa a resistência contra centenas de anos de escravidão, racismo e políticas públicas discriminatórias.

Devido à sua ligação com a religião de matriz africana, o Tambor é um ambiente estético, alegre e motivador, que valoriza a conexão humana, o significado do ritual e a brincadeira. Ele promove o bem-estar para mães, pais e filhos, reduzindo a ansiedade e quebrando o ciclo de estresse tóxico tão comum em um mundo marcado pelo racismo, sexismo e muitas responsabilidades.

Como um espaço para o fortalecimento cultural e pessoal, o Tambor representa a resistência contra centenas de anos de escravidão, racismo e políticas públicas discriminatórias. O Brasil foi o último país do hemisfério ocidental a abolir a escravidão e, nos 150 anos que se passaram desde então, as políticas públicas forçaram os afro-brasileiros a morar em favelas urbanas, criminalizaram suas práticas culturais e religiosas, os excluíram do mercado de trabalho e limitaram seu acesso a boas escolas e universidades. Nos quilombos, favelas e outros espaços que os negros brasileiros construíram para si mesmos, rituais como o Tambor formam um espaço para transmitir a resistência às novas gerações, que já se alimentam do ritmo e do som desde quando estão na barriga de suas mães.

Criação de políticas com base no conhecimento e nas experiências dos povos indígenas

Em 2022, Rita da Silva e Kurt Shaw, os cérebros por trás da Usina da Imaginação, colaboraram com mulheres de quilombos e comunidades indígenas nos estados do Maranhão e Roraima, que compartilham suas técnicas para a criação de seus filhos. Tudo isso foi transmitido através de uma série de documentários curtos. Como parte da plataforma MIMUS (Múltiplas Infâncias, Múltiplos Saberes), os filmes destacam a importância da cultura e das brincadeiras em diferentes faixas etárias para promover a saúde física e mental dos cuidadores na primeira infância, bem como das crianças em geral.

Embora o Tambor exemplifique essa importância, ele é apenas um exemplo entre muitos outros. O povo Guajajara, por exemplo, comemora os primeiros passos de um bebê com três dias de música, dança, rituais e festas; já o povo Ye’kuana faz questão de levar seus bebês para a selva todos os dias para “tecer um cordão invisível” que sempre unirá a criança à natureza. Os festivais, a música, os ritos e as brincadeiras comunitárias são espaços coletivos de capacitação, berços de resistência e apoio a uma população pouco compreendida pelas políticas públicas.

Por muitos anos, as políticas de primeira infância no Brasil tentaram com frequência impor práticas europeias e norte-americanas às populações afro-brasileiras e indígenas. Por exemplo, esforços bem-intencionados para incentivar as mulheres a dar à luz em hospitais enfraquecem séculos de partos feitos por parteiras tradicionais que fornecem um apoio pré-natal essencial. Visitantes domiciliares pedem aos pais que brinquem com com seus filhos com brinquedos de plástico, subvertendo a brincadeira ativa na natureza e o cuidado tradicional dado por crianças mais velhas às mais novas. Nutricionistas favorecem frutas desconhecidas e caras como maçãs ou pêras em detrimento de frutas prontamente disponíveis, como os frutos comestíveis das palmeiras, como açaí e cupuaçu. Hospitais e escolas insistem em lidar apenas com os pais e não com os avós, que comumente criam crianças em grupos afro-brasileiros e indígenas.

Karina Muniz: O auilombar da Liberdade

Argumentamos que a política deve ser construída de dentro para fora, com base nas epistemologias das diversas comunidades e suas formas estéticas de pertencimento. A política deve ser feita com e pelas comunidades, e não para elas. É preciso respeitar seus espaços e práticas coletivas de apoio, cuidado e empoderamento para crianças pequenas e cuidadores. A boa notícia é que e esses espaços já existem, mas a política pública deve fortalecê-los, não destruí-los. Tanto as comunidades indígenas quanto as afro-brasileiras lutam por políticas públicas descolonizadas, apoiando práticas já existentes como o Tambor, não criando uma infância como um modelo uniforme, mas múltiplas infâncias em que a dignidade é o único caminho possível.

Esse modelo é comprovado, mesmo que nunca tenha se tornado uma política nacional. O povo Kaingang, por exemplo, tem lutado para usar o financiamento público para criar creches em espaços onde os avós cuidam das crianças pequenas, como fazem há muito tempo. Temos participado de um movimento para contratar parteiras e xamãs em hospitais públicos em cidades com grandes populações indígenas. Tanto em Roraima quanto no Xingu, médicos treinados no ocidente trabalham em conjunto com médicos tradicionais para desenvolver políticas e capacitar equipes de saúde.

A boa notícia é que e esses espaços já existem, mas a política pública deve fortalecêlos, não destruí-los.

É fundamental reconhecer e fortalecer esses ambientes ritualísticos e suas práticas culturais, favorecendo a vida em comunidade e a produção de significados coletivos. Esses elementos formam a base de uma política pública que estimula diversas formas de desenvolvimento na primeira infância e de apoio aos pais e avós, garantindo o respeito às suas tradições e à sua ancestralidade.

Agradecemos a Kurt Shaw, da Usina da Imaginação, pela tradução deste artigo para o Early Childhood Matters.


Curioso para saber mais?

Ler o artigo 2020 Early Childhood Matters sobre o CanalCanoa, uma plataforma para os povos indígenas documentarem suas músicas, histórias e práticas de criação de seus filhos em mídia digital.

Send us feedback about this article

This feedback is private and will go to the editors of Early Childhood Matters.

    Early Childhood Matters
    Privacy Overview

    This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.