A pandemia de Covid-19 colocou o mundo em pausa. O vírus SARS-CoV-2 se espalhou por todas as regiões, obrigando-nos a mudar nossas rotinas diárias, interromper grandes projetos e direcionar todas as nossas energias para esta emergência trágica e histórica. Ele nos obriga a olhar o presente e o futuro com uma nova perspectiva. Nesse momento, nós estamos pedindo para que todas as crianças, adultos, jovens e idosos sigam os protocolos de saúde para prevenir a transmissão rápida do vírus e o colapso dos sistemas de saúde. Dos líderes exigimos disponibilidade, sensibilidade, objetividade e competência para tratar os enfermos, buscar a cura e a vacina, e apoiar as pessoas: abraçando suas angústias, fornecendo incentivos e orientações para que possamos seguir em frente em busca de um novo amanhã.
No meu país, o Brasil, a doença se espalhou de forma acelerada e alarmante. Aqui, o vírus encontrou uma população com sofrimento generalizado: 52,5 milhões de pessoas (25,3%) vivem na pobreza e outras 13,5 milhões (6,5%) na extrema pobreza1.[1] Entre a população ativa, 11,6 milhões estão desempregados (11%) e 38,4 milhões (41%) trabalham na economia informal.[2][3] A maioria dessas famílias depende do esforço de hoje para garantir a refeição de amanhã. Por conta da pandemia, agora eles se juntaram aos outros milhões que perderam seus empregos ou tiveram o salário reduzido em função da necessidade de ter que ficar em casa para diminuir o risco de infecção nas ruas.
De acordo com os critérios de linha de pobreza do Banco Mundial, pessoas que vivem com menos de US $ 5,50 por dia vivem na pobreza, e aquelas que vivem com até US $ 1,90 por dia são consideradas como vivendo em extrema pobreza (Nery, 2019)
Moreira, C. and Gaier, R.V. (2020, online). Taxa de desemprego no Brasil sobe a 12,2% no 1º tri e mostra sinais de impacto do coronavírus. Economia, 30 Abril. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2020/04/30/taxa-de-desemprego-no-brasil-sobe-a-122-no-1-tri-e-mostra-sinais-de-impacto-do-coronavirus.htm (acesso em Junho 2020).
Garcia, D. (2020, online). Informalidade supera 50% em 11 estados do país, diz IBGE. Folha de S. Paulo, 14 fevereiro 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/02/informalidade-atinge-recorde-em-19-estados-e-no-df-diz-ibge.shtml (acesso em Junho 2020).
O Brasil tem 18 milhões de crianças de 6 anos ou menos. Não apenas 29% deles vivem na pobreza, 23% vivem em habitações precárias. Para essas crianças, ficar em casa não oferece necessariamente a proteção de que necessitam, embora tenha sido a única medida viável para enfrentar a pandemia. Para 41% desses meninos e meninas, a falta de saneamento básico sempre foi uma ameaça permanente. Agora o risco é multiplicado pelo avanço de um vírus que, em menos de dois meses[4], matou mais de 12 mil mães, pais, avós e irmãos.
É muito provável que esse número seja maior se considerados os casos subnotificados.
A resposta do governo federal a este enorme desafio tem, infelizmente, sido caracterizada pela negação e resistência à implementação de medidas cruciais e urgentes. Não é preciso citar aqui exemplos dessa irresponsabilidade, pois boa parte dela já foi veiculada pela mídia de todo o mundo para constrangimento dos brasileiros. No entanto, é importante notar um efeito direto dessa falta de liderança: onde deveria haver coordenação e comunicação entre as esferas federal, estadual e municipal da administração pública, nós testemunhamos o contrário, orientações contraditórias e, pior, o completo desencorajamento de qualquer tipo de política de distanciamento social. A tarefa de restringir as atividades econômicas e manter as pessoas em casa que já é desafiadora por si mesma, torna-se muito mais difícil quando a autoridade central sabota continuamente estes esforços.
Cenário desafiador
No meu estado Roraima, que fica no extremo norte do Brasil, este cenário de carência e dificuldades é ainda mais sombrio, especialmente em minha cidade, Boa Vista. Como capital de Roraima, Boa Vista abriga 65% da população de todo o estado, e os outros 35% restantes também têm uma ligação com a capital por utilizarem serviços mais especializados. Para os 600 mil habitantes de Roraima, existem apenas 30 leitos de terapia intensiva no único hospital público oferecido pelo governo estadual. Há mais pessoas abaixo da linha da pobreza (32,6%) e na economia informal (47,1%) em Roraima do que a média nacional.[5][6] A comprometida capacidade de gestão do estado, que enfrenta uma crise há um longo período, aumenta ainda mais pressão sobre a administração dos municípios.
G1-RR. (2019, online). Mais de 30% da população de Roraima está abaixo da linha da pobreza, aponta IBGE, 6 novembro 2019. Disponível em: https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2019/11/06/mais-de-30percent-da-populacao-de-roraima-esta-abaixo-da-linha-da-pobreza-aponta-ibge.ghtml (acesso em Junho 2020).
Garcia, D. (2020, online). Informalidade supera 50% em 11 estados do país, diz IBGE. Folha de S. Paulo, 14 fevereiro 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/02/informalidade-atinge-recorde-em-19-estados-e-no-df-diz-ibge.shtml (acesso em Junho 2020).
Além de todos esses desafios existentes, Boa Vista sofreu ainda mais do que o resto do Brasil com a crise humanitária que surgiu na vizinha Venezuela em 2015. Boa Vista tornou-se o lar de 40% dos venezuelanos que se refugiaram no Brasil. Em apenas três anos, a cidade ganhou 60 mil novos habitantes e o número da população aumentou para 340 mil habitantes. Estes novos moradores – cerca de 15% da população – foram integralmente recebidos como cidadãos de Boa Vista.
Recebemos as crianças com uma atenção especial. Desde 2013, Boa Vista vem elaborando e implementando políticas integradas com o foco na primeira infância, que são fundamentadas na ideia de que investir em larga escala no desenvolvimento infantil é uma das melhores maneiras de superar problemas sociais históricos.
Atualmente, o programa ‘Familia Que Acolhe’ atende 1.746 gestantes e mães de crianças de até 2 anos, das quais 777 são mulheres venezuelanas. Nas escolas públicas municipais, 6.101 (13,8%) dos 44.025 alunos são de famílias venezuelanas.
Antes mesmo da chegada da pandemia, Boa Vista já havia se tornado palco de um desafio único no Brasil. A cidade possui o menor orçamento dentre todas as “Além dos desafios existentes, Boa Vista sofreu ainda mais do que o resto do Brasil com a crise humanitária que emergiu na vizinha Venezuela em 2015.” 3 Early Childhood Matters 2020 capitais brasileiras – inferior a US$ 120 milhões – e teve que sustentar serviços públicos sobrecarregados, em especial o sistema de saúde público. No Hospital da Criança, administrado pelo município, entre 2015 e 2019 o número de pacientes venezuelanos aumentou 16 vezes, passando de 1.719 para 28.196.
Os dois primeiros casos de Covid-19 em Boa Vista foram notificados em 21 de março de 2020. Aproximadamente 50 dias depois, o número de infectados ultrapassou 1.400, com 31 mortes. Seguindo as orientações da Organização Mundial da Saúde, nos primeiros dias interrompemos atividades não essenciais e adotamos medidas de isolamento social. Logo percebemos que, como suspeitávamos, algumas pessoas se recusavam a seguir as recomendações do governo, e sentiam-se apoiadas por meio das mensagens divisionistas que vinham do governo federal, em Brasília. A pandemia também incitou o sentimento de xenofobia contra os venezuelanos, que eram acusados de ‘transportar o vírus’ para a cidade depois que um bebê em um abrigo para refugiados teve o diagnóstico positivo.
Crianças, uma reflexão sobre o futuro da humanidade
Assim como em todos os lugares do mundo, lidar com a Covid-19 em Boa Vista é uma batalha contínua. Não sabemos quando a vida voltará ao normal, mas temos uma luz de esperança que aumenta nossa confiança nestes tempos de incerteza. Aprendi que refletir sobre as crianças é uma maneira natural de pensar sobre a humanidade e que priorizá-las traz benefícios a um número enorme de pessoas. Quando decidimos tornar a nossa cidade a Capital da Primeira Infância, melhoramos sua eficiência. Apesar de sentirmos uma pressão crescente, o município conseguiu manter o equilíbrio das despesas e continuar a oferecer seus serviços.[7]
Prefeitura Boa Vista. (2020, online). Boa Vista é a capital que mais faz investimentos em todas as áreas, aponta estudo, 21 fevereiro. Disponível em: https://www.boavista.rr.gov.br/noticias/2020/02/boa-vista-e-a-capital-que-mais-faz-investimentos-em-todas-as-areas-aponta-estudo (acesso em Junho 2020).
O Hospital da Criança aumentou o número de leitos de terapia intensiva e conta com uma equipe treinada para receber crianças e adolescentes de até 16 anos. Existe uma enfermaria específica para indígenas, onde são respeitados os hábitos tradicionais de cada etnia. Desde que os primeiros casos de Covid-19 foram registrados em Boa Vista, o hospital atendeu 13 crianças, quatro delas indígenas e cinco de famílias venezuelanas. Outros 237 profissionais foram recrutados para trabalhar em outras unidades de saúde.

Elemento central da política integrada da primeira infância, o Programa Família Que Acolhe, continua dando apoio para uma gestação saudável e o cuidado das crianças. As reuniões presenciais com as mães foram suspensas por hora para evitar a transmissão do Covid-19, mas as equipes de saúde seguem acompanhando 4.500 famílias por meio de visitas domiciliares para entregar alimentos básicos, leite em pó, e produtos de higiene e limpeza. A lógica é simples: nós cuidamos do cuidador e consequentemente o cuidador cuida bem de seus filhos.
Os setores de assistência social, educação e saúde também estão utilizando estas visitas domiciliares para oferecer apoio e proteção. Call centers foram treinados para fazer monitoramentos e direcionar as vulnerabilidades. Com o fechamento das escolas, foi criado um programa online – @Aprendendo em CasaBV (‘Aprendendo em Casa Boa Vista’) – para realizar via Instagram atividades pedagógicas a distância. Professores municipais desenvolveram conteúdos específicos para o programa de educação infantil, ensino fundamental, educação especial e educação indígena.
Em casa, as crianças realizam tarefas simples com foco no aprendizado e na interação social com a família. O programa instrui pais e responsáveis sobre atividades educacionais, como criar jogos e brincar com objetos domésticos.
Antes da pandemia, estávamos dialogando constantemente com a sociedade por meio de reuniões de bairro e das redes sociais. Tivemos que cancelar os encontros presenciais, mas intensificamos a comunicação nas plataformas online, priorizando orientações e informações de saúde. Essa interação também está sendo importante para acolher os sentimentos das pessoas durante esse momento difícil. Incertezas e medos muitas vezes geram stress e a necessidade de encontrar “inimigos” para colocar a culpa.
Tento compartilhar com as pessoas a visão de que as diferenças nos enriquecem e nos impulsionam para frente. Recordo-lhes da coragem e da força dos profissionais de saúde, bem como das equipes responsáveis por entregar as caixas de alimentos e de outros mantimentos às famílias vulneráveis, trabalhando para todos com o mesmo compromisso e dedicação. Lembro-lhes da coragem e da determinação de todos os profissionais da linha de frente, que prestam serviços essenciais com o intuito de encorajar outras pessoas a cuidarem melhor de si e dos outros, em particular dos nossos filhos – e todas as crianças – para que amem o planeta onde vivem.









