Estudos mostram que crianças expostas à má qualidade do ar apresentam dificuldades no desenvolvimento físico e psicológico. Isso não só prejudica sua qualidade de vida, como limita seu desenvolvimento escolar e su as chances de obter um trabalho digno, o que vai reduzir significativamente su a contribuição para a sociedade como um todo.
Dados mais recentes sobre a poluição do ar e a saúde das crianças estão em um novo relatório da Organização Mundial de Saúde, resumido nas páginas 138–141 desta edição. Os desafios vão além dos custos e encargos da saúd e. Alguns impactos levam anos ou décadas para se tornarem evidentes.
Um relatório recente do Unicef[1] afirma:
Unicef. (2017). Danger in the Air: How air pollution can affect brain development in young children. Data, Research and Policy Working Paper. Disponível em: https://www.unicef.org/sites/default/files/press-releases/glo-media-Danger_in_the_Air.pdf (acessado em fevereiro de 2019).
Na verdade, os autores observaram que um estudo entre crianças expostas à poluição detectou queda de quatro pontos no QI aos 5 anos de idade. Isso é particularmente preocupante para os países que se esforç am para alcançar um crescimento econômico inclusivo, erradicar a pobreza e atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Ao sofrerem deficiências físicas ou psicológicas devido à poluição do ar, as crianças podem ter sérios prejuízos em sua capacidade de aprender e se desenvo lver, o que restringirá seu acesso à educação e ao mercado de trabalho no futuro.
Hoje, está claro para os profissionais de saúde e assistentes so ciais que os primeiros mil dias da vida de uma criança são cruciais. É quand o o cérebro passa pelo crescimento mais rápido e, para alguns, mais importante. As sementes plantadas nesse período, e os estágios de desenvolvimento alcançados, pavimentam a trajetória para todo o desenvolvimento futuro, abrindo caminho para uma interação humana mais madura, para o processamento de memórias, para o controle de comportamentos, etc. Todos os esforços devem ser feitos para garantir que as crianças tenham a oportunidade de realizar plenamente seu potencial durante esta fase e, quais quer deficiências potenciais devem ser evitadas ou reduzidas, o que inclui a má qualidade do ar e da água.
Ao longo do meu mandato como Presidente da Assembleia Geral para a 73ª Sessão, destaquei tanto o “meio ambiente” quanto o “trabalho digno” como questões de importância crítica. Com as ligações óbvias e claras entre os impactos ambientais, acesso à educação/trabalho e qualidade do ar, é importante que os países, comunidades e empresas do setor privado tomem medidas para conter esse problema crescente, especialmente no que se refere às crianças, nosso recurso mais vital e aqueles para quem o nosso trabalho importa mais.
Os desafios são muitos e diversos. Baixos padrões de controle na emissão de veículos em alguns países, aliadas a congestionamento de tráfego; indústrias localizadas perto de residências e escolas; falta de energia li mpa a preços acessíveis, resultando na dependência contínua de fogões a carvão e a lenha, muitas vezes ineficientes; e desmatamento rápido, são todos fatores que afetam a qualidade do ar. Subjacente a todas essas questões está a rápida taxa de urbanização, que projeta para até 2050 que cerca de 70% das 9 bilhões de pessoas no mundo estarão morando nas cidades.
Mudanças estruturais são urgentes e necessárias. Iniciativas de desenvolvimento e planejamento urbano precisam levar em conta as emissões de carbono e outros poluentes industriais e sua proximidade a residências e escolas. Da mesma forma, devem persistir os esforços para afastar as famílias de instalações ineficientes e altamente poluidoras de cozinha e calefação a carvão e lenha, substituindo-as por fogões de fontes renováveis de energia que, além de proteger crianças e famílias, reduzem as emissões de gases do efeito estufa.
Espaços verdes, inclusive os situados no meio urbano, bem como campanhas de reflorestamento em larga escala, são fundamentais para ajudar a garantir que as defesas naturais do planeta contra os poluentes do ar sejam seguras e adequadas à finalidade. Como exemplo, uma iniciativa ora em ação no Paquistão, o projeto “Billion Tree Tsunami”, já atingiu a marca de 1 bilhão de árvores plantadas antes do previsto, com uma nova meta de 10 bilhões a ser alcançada em três anos. Esta iniciativa recebe o apoio de quase a totalidade do Sistema das Nações Unidas, o que demonstra respeito pelo papel das florestas na saúde dos ecossistemas e meios de subsistência, das pessoas e das comunidades.
Finalmente, deve-se reforçar o apoio aos veículos elétricos e a um transporte público melhor. Enquanto a mudança para veículos mais ecológicos está bem encaminhada – vemos isso em países como Marrocos, que lançou um a frota de ônibus elétricos, e na Europa, onde veículos movidos a diesel s erão proibidos na França até 2040 -, mais deve ser feito para garantir um ar mai s limpo em todos os lugares.
Importante ressaltar que esses esforços trazem ganhos para todos os envolvidos. O reflorestamento não apenas apoia a saúde e o bem-e star do ambiente e das pessoas, como ainda cria empregos e estimula a s ubsistência. Para o setor automotivo, investir em veículos mais limpos e em um melhor transporte público pode ajudar a impulsionar a inovação. Os governos podem garantir as mudanças implantando medidas regulatórias que exijam a produção de veículos ambientalmente corretos.
Embora gastos públicos e regulamentação sejam temas que frequentemente geram reações negativas, uma forte campanha pública destacando os benefícios claros para o trabalho digno, para a saúde pública e para o bemestar ambiental, ajudará a facilitar o apoio da sociedade.
A chave para todo esse esforço envolve um forte compromisso das partes interessadas para enfrentar este desafio. Falamos de governos, autoridades de saúde pública e representantes do setor privado. Tal compromnisso deve incluir ainda uma disposição para tomar decisões difíceis no cu rto prazo, mas que, assim como os impactos de longo prazo sobre o bem-estar de uma criança, valerão a pena mais tarde, mesmo que inicialmente isso não fique claro. Estudos e análises consistentes da qualidade do ar também serão importantes; a Índia deu passos decisivos nesse sentido, emitindo alertas regularmente quando a poluição é muito alta, ao mesmo tempo em que toma medidas para reduzi-la e educar seus cidadãos.
Em suma, investir pesadamente em esforços para controlar a poluição do ar, a poluição da água e quaisquer outros fatores ambientais que possam inibir ou prejudicar a saúde, o potencial e o bem estar de nossos filhos é um investimento na saúde, prosperidade e futuro de toda a população.







