As bases para a saúde e o bem-estar de um ser humano são definidas durante seus primeiros anos de vida, desde a gravidez até o terceiro aniversário de nascimento. Recentes estudos científicos ressaltam os benefícios transformadores que podem ser obtidos durante esse período por meio de bons cuidados, estímulos e oportunidades de aprendizado: as crianças terão mais chances de crescer e se tornarem adultos mais saudáveis, com melhor nível educacional e uma melhor situação socioeconômica. Na maioria dos locais com poucos recursos, no entanto, os investimentos em desenvolvimento da primeira infância ainda se concentram principalmente em crianças em idade pré-escolar, deixando de lado a fase crítica dos primeiros anos de vida, quando os atrasos no desenvolvimento podem ser reduzido ou até mesmo evitados.
Desde 2012, a organização PATH tem trabalhado para preencher essa lacuna, defendendo uma abordagem que usa os sistemas de saúde para ampliar os serviços de desenvolvimento da primeira infância[1] para as crianças mais novas. Esse trabalho começou de forma relativamente isolada, uma vez que a PATH costumava ser a única voz em escala nacional que defendia uma série de mudanças para as quais os formuladores de políticas e outras pessoas influentes ainda não estavam preparados para aceitar. Mas nos últimos dois anos esse panorama mudou dramaticamente, tanto em escala global como nacional, a ponto de hoje se buscar garantir não só a sobrevivência das crianças, como também sua prosperidade.
Declaração da organização PATH: líder em inovação global em saúde, é uma organização internacional sem fins lucrativos, que salva vidas e melhora a saúde, especialmente de mulheres e crianças. PATH acelera a inovação em cinco plataformas – vacinas, medicamentos, diagnósticos, dispositivos e inovações de sistemas e serviços -, que aproveitam nossa visão empreendedora, conhecimento científico e de saúde pública, e paixão pela equidade em saúde. Ao mobilizar parceiros em todo o mundo, a organização PATH expande a inovação, trabalhando ao lado de países principalmente na África e na Ásia, ajudando-os a lidar com suas maiores necessidades de saúde. Com esses parceiros-chave, PATH fornece resultados mensuráveis que interrompem o ciclo da saúde debilitada. Para mais informações, visite www.path.org.
Inovando para alcançar as crianças pequenas
Devido ao trabalho de longa data da PATH em prol da melhoria da saúde e da nutrição infantil, detectamos uma oportunidade para abordar de maneira mais ampla o desenvolvimento da primeira infância no contexto do sistema de saúde. Em 2012, um estudo inicial das políticas e dos programas de desenvolvimento da primeira infância no Quênia, em Moçambique e na África do Sul confirmou nossas suspeitas: fora do setor de saúde havia poucos serviços destinados a crianças menores de 3 anos de idade. No ano seguinte, começamos por adaptar os modelos de desenvolvimento da primeira infância ao sistema de saúde e a testar a estrutura do Child Development Care da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Unicef para formar os trabalhadores desses serviços no Quênia e em Moçambique.
Apesar do progresso da PATH em demonstrar a viabilidade da nova abordagem e em aumentar gradualmente o escopo do programa, o setor de saúde não reconhecia amplamente a relevância dessas intervenções na primeira infância, e a possibilidade de ter políticas e um compromisso claro do governo para promover uma expansão em grande escala ainda parecia distante. No entanto, na série sobre o desenvolvimento da primeira infância da Lancet, publicada em 2016[2], afirmou-se que o sistema de saúde era o principal ponto de entrada para chegar até as crianças pequenas e seus cuidadores. Da mesma forma, o conceito de “cuidado afetivo” (abrangendo saúde, nutrição, atenção às necessidades, aprendizado precoce e segurança) foi utilizado pela primeira vez, entendido como um conjunto essencial de intervenções interconectadas, necessárias para garantir o desenvolvimento ideal. A publicação destacou a urgência de integrar essas intervenções nos serviços de saúde de rotina e serviu para acelerar o trabalho da PATH, uma vez que promoveu a criação de alianças com a OMS, UNICEF e numerosos governos nacionais que vinham mostrando cada vez mais interesse no assunto.
The Lancet. (2016). Advancing Early Childhood Development: From science to scale. Disponível em: http://www.thelancet.com/series/ECD2016 (acesso em fevereiro de 2018).
Um modelo adaptativo
Com base nos dados disponíveis, na experiência e nas necessidades do país, a PATH usa o sistema de saúde como ponto de entrada para ajudar as famílias a garantir a prosperidade de seus filhos. Para isso, uma tarefa tripla é realizada:
- integrar serviços para a primeira infância em todas as áreas do sistema de saúde, desde a capacitação dos prestadores de serviços, até a assistência e supervisão, assegurando a coleta de dados relevantes pelos sistemas de informação.
- Expandir a base de dados de integração do setor de saúde de programas para a primeira infância em contextos de poucos recursos e disseminar as conclusões
- Promover um ambiente positivo incluindo conteúdos sobre o desenvolvimento da primeira infância em políticas, diretrizes, programas de treinamento, orçamentos e planos de trabalho governamentais
Entre 2011 e 2017, a PATH implantou na África do Sul um grande programa de fortalecimento de sistemas de saúde, no qual o desenvolvimento da primeira infância era uma componente chave do pacote mínimo de serviços prestados em escala comunitária. A PATH atualmente apoia os esforços dos governos da Costa do Marfim, Quênia, Moçambique e Zâmbia para expandir os serviços de desenvolvimento da primeira infância integrados aos sistemas de saúde. Vale destacar que a PATH contribuiu para a integração do cuidado afetivo em 11 sistemas distritais de saúde no Quênia e em Moçambique. Ambos os países estão expandindo a escala de integração, com o objetivo de atingir uma população de pelo menos 2 milhões de pessoas até 2020. Ao implantar essa abordagem, a PATH trabalha em estreita colaboração com os formuladores de políticas, a equipe técnica e a sociedade civil para alinhar as intervenções com as estruturas e os recursos existentes, e para garantir que o governo esteja sempre no comando da ação.
Estabelecendo sistemas sólidos de prestação de serviços de cuidados afetivos
Os trabalhadores da área da saúde frequentemente são os primeiros e únicos provedores de serviços que interagem periodicamente com crianças menores de 3 anos e seus cuidadores. O objetivo da PATH é fornecer a eles o treinamento, as ferramentas e os recursos necessários para integrar o cuidado afetivo nos serviços de saúde, tanto nas comunidades como nos centros de saúde. Primeiro, a PATH cria um quadro de supervisores e instrutores do governo, incorporando conteúdos sobre o desenvolvimento da primeira infância na formação referente aos pacotes padrão de cuidados, como o Gerenciamento Integrado de Doenças Prevalentes na Infância (AIDPI) da OMS. Além de rentável, esse modelo melhora o controle governamental e reforça a inclusão do cuidado afetivo como componente essencial do sistema de saúde.
Uma vez treinadas, essas equipes capacitam os prestadores de serviços a integrar em seu trabalho diário conteúdos sobre cuidado afetivo: nos atendimentos de pré-natal e pós-natal, vacinações infantis e monitoramento das fases de crescimento, e em serviços pediátricos e intervenções comunitárias. A equipe do centro de saúde, por exemplo, aprende a assessorar as atividades lúdicas e de comunicação adequadas à cada idade, para avaliar os estágios do desenvolvimento e encaminhar as crianças a outro profissional em caso de indícios de atraso. Os prestadores de serviços comunitários também interagem com crianças e cuidadores em visitas domiciliares e sessões estruturadas de brincadeiras nas salas de espera dos centros de saúde.
Capacitar os provedores de serviços é apenas o primeiro passo. A PATH também colabora com uma estrutura de mentoria, cujos mentores observam a equipe durante as tarefas de assessoramento aos cuidadores, orientando-os sobre como melhorar os pontos fracos detectados. No Quênia e em Moçambique, trabalhamos em sintonia com o governo para incorporar formalmente a supervisão do desenvolvimento da primeira infância ao sistema de saúde, atualizando as ferramentas e as normas da supervisão de apoio.
Reforçar a coleta de dados e o aprendizado para o desenvolvimento da primeira infância no setor da saúde
TAinda é limitada a base de dados sobre a prestação de serviços orientados ao desenvolvimento da primeira infância no setor de saúde, e muitos dos estudos existentes podem não ser aplicáveis, porque são realizados em ambientes de pesquisa rigidamente controlados. Além disso, poucas pesquisas concluídas até o momento se concentram na África subsaariana. A PATH está trabalhando para suprir essas lacunas. Em Moçambique, realizamos três avaliações sobre a viabilidade e a aceitação da integração de conteúdos de cuidado afetivo em visitas domiciliares e nos serviços prestados nos centros de saúde, bem como na implantação de sessões de brincadeiras nas áreas de espera dessas instalações. Pelo que descobrimos, não só a integração é viável em ambientes com poucos recursos, como também, melhora a percepção dos cuidadores sobre a qualidade do serviço oferecido à população. Isso gerou a vontade política de ampliar tais serviços integrados em escala nacional, além de despertar interesse de outros países.
Trabalhando com parceiros locais no Quênia, a PATH está conduzindo mais pesquisas para avaliar o impacto da integração do setor de saúde nos conhecimentos, atitudes e práticas dos cuidadores, bem como nos resultados do desenvolvimento e no crescimento infantil. O estudo avaliará a rentabilidade da integração e oferecerá conclusões que possam permitir a expansão esperada para mais países e regiões, sob a responsabilidade dos governos nacionais.
Criação de um ambiente político positivo
Vontade política e compromisso de governo em todos os níveis são elementos essenciais para integrar em larga escala os serviços orientados à primeira infância dentro do sistema de saúde de um país. Por meio de ações de advocacy, a PATH busca integrar o cuidado afetivo às diretrizes e políticas nacionais relevantes. No Quênia, por exemplo, as estratégias e diretrizes de saúde infantil se concentravam anteriormente na sobrevivência da criança. A PATH defendeu o desenvolvimento de uma Política de Saúde Neonatal, Infantil e do Adolescente como um guia abrangente para todos os serviços de saúde infantil, e assegurou que a política incluísse conteúdos sobre o cuidado afetivo para as crianças desde o nascimento até a idade de 3 anos.
Para passar da mudança de política para a prestação de serviços é essencial modificar os currículos e as ferramentas de apoio ao trabalho. Em Moçambique os esforços de advocacy da PATH resultaram na inclusão de conteúdos de desenvolvimento para a primeira infância nos currículos de treinamento básico de enfermeiros e agentes comunitários de saúde, que estão agora sob revisão. Isso é particularmente importante para a sustentabilidade e para alcançar escala, já que treinar profissionais já em serviço é dispendioso. A PATH também tem se empenhado em facilitar uma série de consultas no Quênia e em Moçambique com o intuito de promover a integração do conteúdo sobre aconselhamento e monitoramento do desenvolvimento nos programas revisados da AIDPI, que orientam a prestação de serviços de saúde.
Por fim, a PATH defende integrar os serviços de cuidado afetivo aos sistemas habituais de coleta de dados. Por exemplo, trabalhamos com o Ministério da Saúde de Moçambique para revisar os registros de dados sobre saúde das crianças e mães para incluir indicadores relevantes. O significado dessa mudança é muito importante por duas razões: primeiro, permitirá que o governo e outras partes interessadas acompanhem – pela primeira vez – o número de crianças que recebem serviços direcionados à primeira infância, bem como daquelas que apresentam provável atraso no desenvolvimento; em segundo lugar, uma ferramenta formalmente aprovada pelo Ministério da Saúde ajuda os provedores de serviços a considerar o desenvolvimento da primeira infância como parte de seu trabalho de rotina, em vez de uma intervenção promovida por um parceiro externo com uma coleta de dados paralela.
Impulso global e compromisso nacional
Tanto nos níveis global e nacional, uma mudança de perspectiva é clara: cada vez mais o desenvolvimento da primeira infância é visto como um importante fator do setor de saúde. Muitos governos estão prontos para liderar a introdução ou a expansão do cuidado afetivo no sistema de saúde e preparados para aportar recursos para a agenda da “prosperidade”. O sistema da PATH oferece um roteiro para governos e parceiros interessados neste trabalho.
Reconhecemos que não é possível revisar os sistemas de saúde da noite para o dia. No entanto, os últimos estudos científicos, a liderança dos países e uma comunidade global coordenada são fatores que facilitam avanços importantes quando se trata de alcançar crianças pequenas e seus cuidadores.






